Domingo, 09.09.12

O Fruto

Moedas
atiradas,
que se tornam
pedras
quando lançadas,
o escárnio
que carregam
queima,
mas queima mais
a fome,
surda chama.

Rastejamos
sem pudor
por esta lama,
celebrando
a anomia
a que se chama,
sociedade.

Quando se irá
levantar o homem
do chão
e pegar
pela própria
mão,
no que é seu
de direito,
falar alto e
encher o peito
do doce ar,
que exala
o feito
de seus pais
de seu país,
que um dia
levantando-se caiu
e não morreu,
meramente
subsistiu,
para que pudesse
este
levantar-se em fim,
e com um fim
proposto.

Erguer-se
amargamente,
a contra-gosto,
para colher
o fruto augusto
que diariamente
lhe é oferecido
e
que pronto
está
para ser colhido.



António de Almeida Carvalho
Estudante - Licenciatura em Relações Internacionais

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:26 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quarta-feira, 20.06.12

Uma outra visão sobre a Síria

Uma análise sobre o conflito interno sírio deve obedecer obrigatoriamente a uma visão fria, uma visão que respeite a sua complexidade, uma visão de Relações Internacionais. Afinal de contas, um jogo de xadrez envolve múltiplas e complexas jogadas bem expressas pela lenda de Lahur Sessa. Porém, convenhamos que o maniqueísmo entre peças pretas e peças brancas também não se adequa ao cenário noticiado por todo o mundo. Em situações semelhantes a esta exige-se a procura das peças cinzentas.

Em primeiro lugar é preciso contextualizar no espaço. O Médio Oriente será talvez a região mundial nevrálgica para perceber e, porque não, alimentar uma futurologia sobre as movimentações estratégicas das principais potências mundiais no contexto global. Tentarei ser sucinto: conflito israelo-árabe, Iraque, Afeganistão, Irão. Tudo somado e obtemos o resultado ou a matéria-prima petróleo. Se a esta equação adicionarmos outros factores como Primavera Árabe e fundamentalismo religioso, então apercebemo-nos que o rastilho está aceso e a explosão poderá estar por anos ou decénios, mas dificilmente será evitada.

Neste processo de montagem do puzzle, a Síria é mais uma peça na mão dos jogadores e não apenas um episódio avulso da história. O seu desfecho na minha opinião deixará antever como decorrerá a rede de relações entre os vários países e a contra-hegemonia numa visão unipolar que os Estados Unidos da América almejam desde a Guerra-Fria. Neste sentido, perceber o confronto entre regime sírio e rebeldes é perceber quem mais está envolvido.

Comecemos pelas forças em confronto. Os protestos contra o Governo começaram em Fevereiro de 2011 um pouco por todo o país, opondo civis à opressão do regime de Bashar Al-Assad. A população síria reivindicava reformas nas mais diversas áreas sociais, assim como a demissão de Assad; receberam a mão firme do poder instalado. A tensão agudiza-se e Assad numa manobra de tranquilização da comunidade internacional e dos próprios civis, afirma em Abril do mesmo ano que procederá ao levantamento do estado de emergência que vigora desde 1963, a uma reforma eleitoral e à elaboração de uma nova Constituição em Agosto. Contudo, o povo sírio sabe o valor das palavras proferidas pelo seu líder e prossegue a contestação que vai subindo de tom e agudizando a tensão vivida. Entretanto surgem o Conselho Nacional da Síria (CNS) composto por movimentos de oposição do Governo que pretendem uma solução pela via dialogante para o conflito, e o Exército de Libertação Sírio, com quartel-general em Hatay na Turquia, que agrega os rebeldes armados e vários desertores do exército sírio. O seu líder é o Coronel Ryad Al-Assad e pretendem apenas uma área de exclusão aérea onde possam reagrupar e recrutar soldados, pelo que se opõe a uma intervenção externa. Ainda não se percebeu muito bem a relação entre estas duas estruturas, porque por um lado temos uma irmandade muçulmana e os pró-americanos que pretendem a inclusão do exército rebelde no CNS; por outro temos o máximo representante, Burhan Ghalyoun, e seus correlegionários que defendem a manutenção da essência pacifista do respectivo órgão. Por agora, sabe-se apenas que houve coordenação de acções mas pouco mais entre ambos.

Por enquanto a força comandada por Ryad Al-Assad fica a dever ao exército regular que está muito bem equipado, é mais numeroso e é suportado pelo Irão e pela Rússia. Convém ainda referir que existem 14 agências de inteligência estaduais e uma milícia denominada shabiha formada por cidadãos na sua maioria alauítas, com cadastro que reprimem a troco de soldo.

Os confrontos mais violentos entre ambos estão correlacionados com os locais onde os protestos também têm sido mais visíveis. Os mais sangrentos têm sido verificados em Homs, Hama, Dera, Al-Shungur, Bou Kamal, subúrbios e áreas no seio de Damasco, assim como em cidades vizinhas desta. Neste momento, os rebeldes possuem mais influência no noroeste do país. A contestação é menos sentida em cidades-baluarte alauítas (grupo étnico do governo) na região montanhosa de Al-Jabal ou em Aleppo onde a repressão da shabiha é muito forte.

Mas esta luta pelo poder não seria tão noticiada não fossem os massacres que nos chegam pela televisão todos os dias. Neste âmbito, a corrente da opinião pública no geral tende a culpar o Governo pelos terríveis massacres que têm sido cometidos. É verdade, não nego. Mas eu também não ignoro os relatos de ONG's como a Human Rights Watch que acusam igualmente os rebeldes pelas atrocidades realizadas e pelo recrutamento de crianças-soldado. Não posso também ignorar que Houla possa ter sido uma retaliação governamental após massacres de aldeias alauítas vizinhas por parte de rebeldes, sendo que, a agência de imprensa Rede Voltaire aponta o dedo aos rebeldes como autores de vários massacres que usam como instrumento contra a imagem de Assad e para culpar o regime. E Houla poderá muito bem ter sido um deles. Por fim, um último dado em relação aos rebeldes. Ainda que o líder do Exército de Libertação Sírio afirme a sua independência face a grupos como o CNS ou a Irmandade Muçulmana, a verdade é que é inegável a presença no terreno de grupos terroristas como Al Qaeda e Jund-Al Sham. Até que ponto as fileiras de cada um dos envolvidos na oposição serão desconhecidas entre si...

Expostos os parágrafos anteriores, se a CNS quer uma solução pacífica e o Exército de Libertação Sírio não pretende intervenção externa, a quem é que esta interessará?  Dedicarei agora as minhas palavras ao ambiente externo que rodeia a Síria e a sua influência no modo como se têm desenvolvido os acontecimentos.

Os Estados Unidos e União Europeia já aprovaram sanções a Damasco mas o Conselho de Segurança não aprovou o artigo 41 da Carta das Nações Unidas devido ao veto da Rússia e da China. Por sua vez, no dia 2 de Novembro de 2011 a Liga dos Estados Árabes aprovou um plano em favor do fim da violência e protecção dos cidadãos sírios, tendo sido aceite por Assad. Porém, o seu não-cumprimento e a escalada da violência levaram a que a Síria fosse suspensa enquanto membro desta organização. Neste momento, o enviado-especial da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, encontra-se a mediar o conflito após o Governo Sírio ter aprovado o seu plano de 6 pontos, estando previsto entre outros a retirada do armamento pesado do terreno e o cessar-fogo.

Sejamos realistas, qualquer um dos Estados envolvidos na solução para o conflito esconde os seus verdadeiros intentos na sombra de uma suposta valorização dos direitos humanos e da liberdade síria. A mesma sombra que foi fotografada na Base das Lajes. A sombra da necessidade de controlo do Médio Oriente por parte dos Estados Unidos da América. Esta região do globo é claramente estratégica para os interesses norte-americanos, porque pretende condições vantajosas senão o controlo dos principais fornecedores de petróleo e porque do ponto de vista estratégico é uma jogada de isolamento do Irão, cuja cúpula política xiita tem excelentes relações com o poder alauíta sírio e é um dos seus principais apoios e suportes a todos os níveis. Reforço, o Irão é o objectivo final. Sim, o combate ao terrorismo há muito deixou de ser a principal prioridade da super-potência mundial, caso contrário não teria armado os rebeldes líbios (efectuam execuções sumárias todos os dias) nem estaria disposto a armar os rebeldes sírios como já foi admitido por Hillary Clinton. A História repete-se; os Estados Unidos repetem erros e entregam armas a potenciais inimigos futuros.

Mas o que leva a Rússia e a China a apoiarem Bashar Al-Assad? No que concerne a Moscovo, é necessário realçar que existe uma aliança de considerável duração que se materializa não só no fornecimento de armamento como na localização de uma base naval russa em Tartus. Porventura, alguns analistas referem que a Rússia sai a perder no seu apoio à Síria o ao Irão até porque a sua política energética poderia concorrer com estas potências no fornecimento do petróleo ao Ocidente, mas eu vejo de outro prisma. Com efeito, a velha desconfiança em relação aos Estados Unidos e até à Europa e o orgulho ferido próprio de uma antiga super-potência que quer voltar a sê-lo, levam-na a tentar prosseguir uma linha de alianças que tem sido abalada quer pela invasão ao Iraque, quer à Líbia, apenas para dar um exemplo. Visto deste modo, a Federação Russa não terá qualquer interesse em perder dois dos seus aliados em pleno Médio Oriente. Do lado chinês, existe o grande argumento económico e prende-se com o facto da Síria ser o seu 3.º maior importador, assim como argumento diplomático que não é de todo ingénuo, dado que uma mão lava a outra. A China apoiou a Síria na reivindicação de Golan Heights e neste momento veta resoluções na ONU, assim como a Síria esteve ao lado dos chineses em matérias como Tibete e direitos humanos.

O curioso é que este conflito agita igualmente águas muçulmanas. O Hamas pela voz do seu líder Ismail Haniyeh manifestou apoio aos rebeldes, uma opção que pode parecer lógica dada a maioria sunita nas fileiras do Exército de Libertação Sírio e na própria população síria mas que pode acarretar consequências imprevísiveis. Em primeiro lugar, o Hamas está fortemente dependente do financiamento iraniano, país xiita com boas relações com Assad e restantes membros alauítas do poder; em segundo lugar, o Hamas possui uma base de exílio na Síria, que pode vir a perder consoante o desfecho deste episódio; por fim, ainda que não fossem os melhores amigos, Hamas e Hezbollah nutriam respeito mútuo e o inimigo comum israelita, mas estas boas relações poderão também vir a ser afectadas pelo envolvimento destes dois grupos em lados contrários do conflito. Esta lógica parece residir na mente de Khaled Meshaal, líder do Hamas no exílio que se pretende manter à margem dos acontecimentos e negar qualquer participação nos protestos. O próprio Hanyieh viajou em Fevereiro a Teerão para fortalecer laços com o respectivo poder. 

 

Se reflectirmos sobre esta teia diplomática enunciada no parágrafo anterior, à primeira vista é tentador advogar que Israel pode beneficiar deste divide et impera entre os seus principais opositores. Quanto a mim é uma perspectiva ilusória e perigosa que pode trazer benefícios apenas a curto prazo. Não só o poder sírio poderá ficar nas mãos de muçulmanos com uma perspectiva igual ou mais radical que Ahmadinejad, Hamas ou Hezbollah, como terá de lidar com a crescente influência da Irmandade Muçulmana que também se estende ao Egipto. E a História está repleta de coligações negativas, pelo que qualquer peão considerado "adversário do Islão" poderá ter a sua reedição da Guerra dos Seis Dias, talvez com actores diferentes, porque entretanto o mapa geopolítico também se alterou. Um intervenção externa na Síria, à qual se opõe igualmente o Exército De Libertação Sírio, poderá desencadear acontecimentos imprevísiveis e mais depressa do que se possa imaginar.

Olhemos para o mapa, quem está em xeque? Eu diria que o povo sírio. Este está dependente das manobras políticas externas aos seus governantes e rebeldes. Não há peças brancas nem pretas, há cinzentas ou actores que representam o seu papel no xadrez das grandes potências. Concluindo a análise, não vislumbro melhor solução do que um plano de mediação internacional conduzido pelas principais potências com ascendente nos dois lados do conflito. O diálogo é melhor que qualquer combate fratricida em nome de interesses externos. A Síria não é a Líbia e o xeque-mate poderá representar uma nova guerra a uma escala muito perigosa para o globo.


 

Frederico Aleixo
Licenciado em Ciência Política
 

publicado por Frederico Aleixo às 01:28 | link do post | comentar
Quinta-feira, 07.06.12

A Mão Invisível

A mão invisível,
grande ferramenta
económica,
aquela mão
que nos corrige
a postura,
quando nos vemos
face a face
com a cara da amargura.

Quando
passamos pelo pedinte
que chora silenciosamente,
ou aquela mulher
que mostra os seios
na rua,
é demente.

Quando passamos
pelo menino
que anda ao lixo,
todas as noites
apanha a coloquial
carga até ganhar bicho.

Quando passamos
porque aquele rapaz
que trabalha desde
os oito,
ainda de cara doce,
se encaminha
para uma
mortalha precoce.

Quando tudo
o que vemos está
à nossa frente,
e os grandes lados,
são passados,
e ignorados.
Regurgitados,
e rejubilados,
caídos e abandonados,
como fruta podre no chão.

Que mesmo
longe da visão,
empesta
uma sala
daquele odor
peculiar
que nos faz passar
a odiar
ter nariz
e cheirar,
nos faz querer
cuspir
e vomitar,
para de lá sair
e não ter que
pensar
ou assistir.

Para uma terra sem fruta,
um mundo inorgânico
e biônico,
rasando tanto
o trágico
como o cómico,
com a sua perfeição
de papelão,
que tão bem
fica, nas fotos
a preto e branco.

 

 

António de Almeida Carvalho
Estudante - Licenciatura em Relações Internacionais

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Terça-feira, 05.06.12

A democracia e o FMI

 

 

Há uns dias atrás, a directora do FMI, Christine Lagarde, deu uma entrevista ao jornal britânico Guardian. Na entrevista, a directora do FMI, ao falar sobre a Grécia, teve esta tirada: “Eu não pago impostos, mas vocês devem paga-los. “ Esta atitude, aliado ao seu salário anual de 467,940$, mais 83,760$ de ajudas, gerou uma onda de contestação nas redes sociais (http://www.facebook.com/GreeksVSLagarde). Christine Lagarde, tal como todos os funcionários da ONU (e suas ramificações), não pagam impostos, ao abrigo de um acordo internacional. Lagarde, na entrevista, afirmou também que sente mais pena das crianças do Níger do que dos idosos gregos (talvez desconhecendo que tal como no Níger também na Grécia já existem casos de fome). É sempre bom saber que, a directora de uma instituição mundial, faz diferenciação entre vidas humanas, invés de tratar todas de forma homogénea. 

 

Mas porquê pensar em democracia numa instituição internacional (e não apenas europeia), em que o seu director geral tem de ser europeu, e em que 11 vezes possíveis, 5 foram ocupados por franceses? Mas talvez, a senhora Lagarde, esteja a ser mal interpretada, talvez ela tenha tido apenas um momento da nostalgia durante a entrevista, recordando com saudade o período em que a França colonizou o Níger. Fruto desse colonialismo francês, e de sucessivos golpes militares, o Níger é hoje um dos países mais pobres do mundo e com um dos piores índices de desenvolvimento humano. Para agravar, o Níger foi alvo de um ajuste económico do FMI em 1994, apesar da resistência popular e da oposição. O director do FMI em 1994, um dos antecessores da francesa Christine Lagarde, era também o francês, Michel Camdessus. Parece que o Níger ainda continua a ser uma questão sensível para os franceses, que continuam a encontrar formas legais de perpetuar o seu legado colonialista em África. Se Christine Lagarde, tem pena das crianças do Níger por terem sido colonizadas pelos franceses, pela guerra civil, pelos golpes militares, pelo insucesso do programa económico do FMI em 94, por ser um dos países mais pobres e com pior IDH, então sim, eu subscrevo a sua empatia para com as crianças do Níger. Mas vou ainda mais além, porque sinto pena por todas as crianças e idosos que passam fome em qualquer parte do mundo (na Grécia também, mas a senhora Lagarde desconhece esses casos). Tenho pena porque os EUA, (por curiosidade o país com mais peso no FMI, com 17% de poder de voto) tenham possibilidade de acabar com o flagelo da fome mundial, bastando para isso despender o equivalente ao seu orçamento militar.

 

Por falar em militar, é interessante o apoio do FMI, com os seus famosos programas de ajuda económica, a ditaduras militares (mais um exemplo claro de democracia). No total foram 21 casos: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, El Salvador, Etiópia, Haiti, Indonésia, Quénia, Libéria, Malawi, Nigéria, Paquistão, Paraguai, Filipinas, Somália, África do Sul, Sudão, Síria, Tailândia e República do Congo. Escusado será dizer que tanto nestes casos como nos outros, estes programas falharam sempre, aliás, até prejudicaram muito mais os países. Estes programas impõem sempre medidas severas de contenção de gastos públicos, não considerando tais gastos como investimentos. O exemplo da Argentina é o melhor que ilustra esta situação. A Argentina teve que privatizar o sector da energia e da água, deixando ao interesse dos privados e estrangeiros, o preço da electricidade e da água (sectores estratégicos e fundamentais em qualquer economia). Só após a ruptura com o programa do FMI, a Argentina começou a mostrar resultados de económicos positivos. Talvez Portugal, e este governo em específico, aprendam com a História e percebam que os programas do FMI nunca funcionaram nem nunca vão funcionar, mas a avaliar pela convicção do ministro Paulo Portas, que defendeu que este programa vai funcionar e Portugal será um exemplo para o mundo, pois será o primeiro país da História, em que um programa do FMI funcionará. A História encarregar-se-á de mostrar, que tal como a Angela Merkel ao apontar Berlim na Rússia num mapa da Europa (talvez já a pensar numa possível expansão alemã ou talvez a apontar vingança à Rússia, visto que Hitler começou a perder a guerra, ao ser derrotado na Rússia), também Paulo Portas irá equivocar-se.

 

 

Pedro Silva
Estudante – Mestrado Ciência Política

 

publicado por Pedro Silva às 17:19 | link do post | comentar
Segunda-feira, 28.05.12

O desnorte europeu ou a dicotomia legalidade/ legitimidade

 

 

As mais recentes notícias vinda a público sobre o modus operandi europeu no que concerne à sua estratégia de combate à crise das dívidas soberanas recordaram-me a relevância da distinção entre legalidade e legitimidade. Entenda-se, uma lei não é obrigatoriamente legítima, principalmente quando não representativa do bem-estar dos cidadãos; uma das funções do Estado. Uma lei pode até estar imbuída de imoralidade, ou pior, pode levar a uma inversão de valores mesmo se provinda de altas instâncias de países tidos como democráticos e subscritores do primado dos Direitos Humanos.

O caso grego é disso exemplo. Quando leio que um Hospital grego ponderou reter uma criança pelo facto de uma mãe não ter a capacidade financeira de pagar o custo da cesariana ou quando leio que são criados campos de detenção para imigrante ilegais, quais criminosos, vislumbro um futuro que regressa ao passado e nos propõe a um retrocesso civilizacional. É impossível não apelar ao bom-senso quando se pede a um povo que abdique de quase todos os seus direitos adquiridos e da própria dignidade em nome de uma dívida cujos juros são à partida impagáveis. Principalmente quando essas pessoas não participaram nos crimes financeiros cometidos por aqueles que os governam. Mas não foram eles que os elegeram? Duvido que alguém tenha depositado o seu voto num partido que tivesse como promessa eleitoral escamotear as suas contas públicas com a ajuda de bancos de Wall Street. Sim, exacto, aqueles que provocaram a segunda maior crise financeira da história e saíram ilesos, tendo até representantes em elevados cargos governativos nos EUA.

O papel da Alemanha nisto tudo, ao contrário do que o seu embaixador em Portugal possa dizer - refiro-me a Passos Coelho -, é de inegável discussão. Em primeiro lugar temos de nos perguntar se queremos a progressão da União Europeia ou o seu fim. Coloquemos as coisas preto no branco sem lugar a cinzentos: só há uma maneira do projecto europeu não se desintegrar e esse caminho envolve um federalismo financeiro e económico que se adeque ao uso de uma moeda única. Esta não é definitivamente a orientação alemã. Depois pensemos na incongruência de uma saúde financeira saudável sem uma política de crescimento séria que não se baseie em salários baixos, tectos a défices e a dívidas que levarão inevitavelmente à destruição de uma Europa Social ou a facilitação de despedimentos. Sem pujança económica, acredito que as contas de um Estado possam atingir o objectivo do PEC  mas acarretarão igualmente que este engorde o dobro passado um curto espaço de tempo, dada a fraca estrutura económica, a diminuição da receita fiscal e o aumento de apoios sociais em conjugação com outras despesas. Em terceiro, é preciso dizer que todas estas medidas de austeridade são atentados à democracia. O demos grego não votou em bancos que provocaram a crise, não votou no governo alemão e, por incrível que pareça, não votou no Executivo europeu. Estes órgãos não foram sufragados pelo eleitorado da Grécia e impõem medidas sufocantes que não contribuem para a recuperação do país. Onde está a perspectiva ascendente do poder? Para finalizar, a Alemanha tem memória curta. Quando provocou a Segunda Grande Guerra e saiu derrotada, não só viu perdoada uma parcela muito significativa da sua dívida como ainda foi poupada a muitos custos de reparações. Mais, foi a ajuda do Plano Marshall e a sua inclusão no projecto europeu que permitiram que se levantasse e se tornasse na grande potência económica europeia.

Reflictamos neste ponto: a Europa não tem rumo. Pior, a Europa não tem memória histórica. A Europa que sempre se orgulhou do seu Estado-Social e dos respectivos direitos sociais, avança agora para um liberalismo perigoso e desumano. A Europa que sempre se quis destacar como uma potência moralista e exemplar no que concerne ao humanismo da sua política externa ameaça prosseguir uma política xenófoba de imigração. Uma Europa reconstruída com base na ajuda mútua suportada por um projecto europeu está agora em processo de auto-destruição por negar a solidariedade aos países periféricos.

Esta é a grande diferença entre legitimidade e legalidade: a primeira aproxima-se dos príncipios norteadores da democracia e da vontade de assegurar a justiça e o bem-estar aos representados; a segunda provém de tiranias que pretendem assegurar os interesses dos representantes de uma minoria oligarca. Cabe à Europa seguir um dos caminhos desta bifurcação.

 

 

Frederico Aleixo
Licenciado em Ciência Política 

publicado por Frederico Aleixo às 02:06 | link do post | comentar
Domingo, 20.05.12

A contradição do Mercado-Livre Socialista

 

 

O Partido Socialista(PS) sofre de uma contradição.

 

O PS defende, na teoria, o socialismo. Naturalmente, entendamos que isto significa um sistema internacionalista, em que a humanidade se auto-organiza e gere os recursos do planeta consoante as suas necessidades. Começando nos bairros, passando por concelhos de cidades (por aí em diante…) e chegando finalmente a concelhos mundiais, a humanidade regularia assim o fluxo de mercadorias em todo o mundo.

As posições sociais-democratas dos dirigentes do PS traem portanto, os princípios fundamentais da internacional socialista e do seu próprio partido.

 

Esta posição não é inocente nem irrelevante. A viragem à social-democracia foi feita porque o socialismo democrático é impossível, e consequentemente foi necessário aumentar a base eleitoral, abrangendo assim um público inculto politicamente, certo de que a social-democracia e o socialismo poderiam ir de mãos dadas até ao internacionalismo socialista.

 

A contradição surge aqui mesmo, quando se tenta advogar a social-democracia mantendo os princípios básicos do socialismo. Como é possível que a humanidade regule o fluxo mundial de mercadoria e ao mesmo tempo permita alguma parte do mercado livre? É um contra-senso que não é discutido no PS e é também uma questão teórica essencial, porque define qual é o objectivo económico a longo prazo do partido.

 

Esta falta de debate teórico levou também à crise interna que o PS irá enfrentar nos próximos tempos. É necessário que volte a existir uma discussão de ideias para além das conversas sobre os acontecimentos que se vão desencadeando. Um partido socialista forte é essencial para que haja um estado social estável que evolua para o socialismo. Mas não um partido que tente usar o populismo social-democrata para ganhar votos.

 

Os membros base do PS devem desafiar os seus dirigentes a colaborar com outros grupos e partidos, realmente de esquerda, e a voltar a pensar à esquerda em vez de cederem às soluções da direita.

 

As abstenções agressivas, Tratados Europeus e conversas sobre o Emprego mostram claramente uma falta de orientação e soluções para o problema económico. E nenhuma solução real vai ser encontrada enquanto os dirigentes do PS continuarem a alimentar a ilusão de que o socialismo social-democrata é possível.

 

 

 

André Menor

Estudante de Engenharia Mecânica

publicado por Frederico Aleixo às 18:11 | link do post | comentar
Quarta-feira, 16.05.12

China : Que futuro ?

‘’ A economia chinesa deverá crescer 8,2 por cento em 2012 e 8,6 por cento em 2013, segundo a previsão difundida hoje pelo Banco Mundial.’’

  

Crescimento económico, investimento global, comércio, tudo isto caracteriza a China de hoje em dia.

    A dinâmica de crescimento da economia chinesa nos últimos 50 anos está entre os desenvolvimentos importantes do século XX. China tem experimentado uma série de políticas e as reformas institucionais, algumas das quais envolveram deslocamentos abruptos do seu país o que influenciou a ordem econômica, social, cultural e político. A verdadeira razão de ser para estas reformas foi para promover o desenvolvimento económico rápido e uma distribuição mais igualitária da riqueza, para atingir autossuficiência nacional. 

  O verdadeiro milagre de desenvolvimento da China ainda está nos seus primeiros passos.

  A expressão «um país, dois sistemas» já não se refere tanto a divisão entra a China e Taiwan, mas sobretudo ao dualismo do ‘’mercado-leninismo”. Para o Ocidente existe um axioma da Historia segundo o qual nenhum país capitalista consegue sustentar o paradoxo de uma economia capitalista, aliada a um governo autoritário – e no entanto é precisamente essa a verdadeira realidade da China. As potências estrangeiras nunca conseguiram penetrar nas inescrutáveis políticas imperiais e portanto o Ocidente deve aceitar a ‘’China como ela é e não como querem que ela seja’’.

  Desde a quase simultaneidade entra a revolta na Praça de Tiananmen e a desintegração da União Soviética, a China e a Rússia têm seguido duas trajetórias muito diferentes. O comunismo chinês foi abandonado por escolha estratégica e substituído, não por um neo-conservadorismo ao estilo russo, nem por um capitalismo apocalíptico, mas sim, por uma transição rumo ao ‘’pacto asiático’’. 

   Por mais ajustamentos ideológicos que o partido faça, continua a haver vários ‘’nãos’’ absolutos e invioláveis: não á liberdade religiosa para os cerca de 40 milhões de cristãos que existem na China, nem para os 30 milhões de muçulmanos.

   A China assistiu já a uma toxicodependência generalizada em relação ao ópio e não irá permitir que a máxima de Marx ‘’ópio do povo’’, se espalhe livremente.

  O PCC é mais poderoso que, mais sofisticado e mais complexo do que qualquer dinastia da história chinesa. Em vez de terem crianças a governar, tem hoje ‘’imperadores’’ MBA que pensam em termos de planos empresariais. A China está dotada de uma nova elite, uma geração que viram os seus familiares sofreram as amarguras do maoismo, que se sacrificou por eles, uma geração mais preparada, mais calculista, capaz de analisar e compreender as fraquezas do Homem e as ambições de uma sociedade cada vez mais exigente, que é controlada com um pulso de ferro.

 

  Contudo, os únicos regimes mais corruptos do que os regimes onde vários partidos rivalizam pelo poder são aqueles onde um partido detém o poder todo. A corrupção na China vai desde a venda de cargos governamentais, a interferência em pequenas e grandes empresas, ate a pirataria fomentada pelo Exército chinês, com vista a angariar fundos.

  Contudo, o povo chinês (no geral) prefere ter um Estado forte do que um Estado fraco, passível de ser explorado pelas potências estrangeira. Em 2004 houve na China 74 000 manifestações, foram no geral contra as alterações dos preços, expropriação de terras e os direitos no local de trabalho – e não uma crescente onde revolucionária contra o Governo chinês.

   A China só irá dar ouvidos aos apelos de democratização, ou qualquer outra mudança sistémica, quando alcançar a meta de uma população com rendimentos médios por volta de 2050.De facto, a democracia talvez chegue a China (se é que alguma vez chegará),mas a corrida e puramente interna, sem dar azo a exigências externas.

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                            Miguel Màximo

                                                                                                                                                              Estudante - Licenciatura de Ciência Política

publicado por miguelmaximo às 19:30 | link do post | comentar
Domingo, 13.05.12

"The First Gay President" - a controvérsia.

A Newsweek Magazine publicou mais uma cover controversa!
Depois da muito provocadora capa com Sara Palin em 2009, da muito criticada publicação com a foto pouco favorecida de Michele Bachmann acompanhada pela headline "Queen of Range" em 2011, e da manchete "Why are Obama's Critics so dumb?", na edição de Janeiro deste ano, a Newsweek não se conteve com as últimas notícias da actualidade norte-americana.

Desta feita o marketing controverso desta revista focou-se nas últimas palavras de apoio ao casamento gay por parte de Barack Obama, ilustrada por uma imagem do presidente fazendo uso de uma  auréola com as cores da bandeira do movimento LGBT, e dando lugar à seguinte frase "The First Gay President".

 

 

No seu artigo de capa, Andrew Sullivan, o popular e abertamente homossexual blogger político, defende que o comunicado feito pelo Presidente Obama estava há anos para ser feito.  Ao longo da sua cover story Sullivan  faz comparações  entre as semelhanças partilhadas pelo Presidente e a comunidade gay:  "He had to discover his black identity and then reconcile it with his white family, just as gays discover their homosexual identity and then have to reconcile it with their heterosexual family".


 Posteriormente Sullivan destaca a relevância do aval dado pelo presidente através de um texto publicado no site "The Daily Beast", onde afirma: "Today Obama did more than make a logical step. He let go of fear (...) He is clearly prepared to let the political chips fall as they may. That's why we elected him. That's the change we believed in".

 

Apesar das palavras sábias ou menos sábias de Andrew Sullivan a questionável capa mantém-se e faz uso do seu primordial propósito: apelar ao criticismo e aumentar as vendas.

Contudo, a título pessoal tenho de acrescentar que para além deste propósito natural de comercialização, a imagem e o título não são os mais bem-vindos. Esta ideia de "First gay president" pode remeter para a visão estupidificada de que quem defende  a conquista de direitos igualitários na sociedade tem de ser automaticamente rotulado na mesma medida.

 

 

 

 

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais

 

 

 

 

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:44 | link do post | comentar

Síria – Qual a melhor solução perante uma comunidade internacional adormecida?

O que se tem passado na Síria, não tem sido só criticado por questões morais e de ética , mas também pela falta de eficiência da comunidade internacional perante as atrocidades cometidas pelo regime Sírio face à sua própria população. 
O governo ditatorial de Bashar Al-Assad  tem reprimido as forças rebeldes que se opõe ao regime, encontrando pelo meio , um vasto número de civis inocentes que vão sendo vitimas de crimes de guerra,  contra a humanidade , violando não só os Direitos Humanos mas como o próprio Direito Internacional.
Face a Damasco, pouco ainda vimos a ser feito pelo nosso mundo Ocidental, onde este tipo de questões são condenáveis e repugnáveis. Não é uma questão de relativismo cultural, sendo que a carta dos Direitos do Homem é Universal, e nenhum povo com direito à autodeterminação quer estar debaixo de um conflito sangrento, vendo todas as suas vidas serem destruídas por aquele que as deveria proteger : o Estado.
Não é uma questão de ingerência e de soberania, pois já vimos intervenções em países por factores meramente securitários, ou de interesse ocidental, tal como vimos intervenções que rapidamente travaram eventos tão desumanos como este. As tentativas de parar as acções de Damasco já contaram com duas tentativas do Conselho de Segurança (vetadas pela China e Rússia), sanções da União Europeia, e uma NATO passiva, ao contrário do que aconteceu na Líbia. 
Potências benéficas como aos Estados Unidos, estando agora à beira de eleições, têm outros interesses políticos, securitários e económicos como a questão nuclear do Irão e não tendo recursos suficientes para se lançarem em mais intervenções, estando o próprio povo americano exausto de Guerras. 
A intervenção militar pode nem sempre ser o melhor caminho, mas as sanções que vão continuando a ser executadas pela comunidade internacional, também vão acabar por ter impacto na vida do grupo-alvo que queremos salvar: a população. Bloqueios diplomáticos e económicos vão fechar mais um regime por si já fechado e que tem desrespeitado cessar-fogos sucessivamente.
A ONU já entrou no terreno Sírio, levando uma equipa de observadores. Esta já denuncia a infracção de cessar-fogo e a falta de compromisso por parte do regime de Assad em manter tréguas, pelo contrário, este ainda procura limitar a entrada de mais observadores da organização no terreno… Até que ponto a situação continuará assim, visto que a insegurança nesta região continua a ser uma importante questão de segurança para o Ocidente, tanto a curto e a longo prazo. Fechar agora os olhos a isto, não irá prejudicar o mundo ocidental agora , mas mais tarde , assim que sentimentos anti americanos e ocidentais crescem entre um povo que vê uma comunidade internacional  quase passiva perante o seu massacre…
A opinião pública tem sido mais eficaz, na condenação e promoção do cessar-fogo, nomeadamente após o vazamento de alguns vídeos de conteúdo desumano. No entanto as redes sociais também servem para fazer pressão : um vídeo com um apelo à mulher do ditador,  feito por mulheres de todo o mundo, resulta numa campanha que visa por termo a ditadura de Damasco.

 

 

 

 

 

Artigo Originalmente publicado a 19 de Abril de 2012

 

 

 

Ricardo Palmela de Oliveira

 

estudante- Licenciatura Relações Internacionais 

 

 

publicado por RicardoOliveira às 20:54 | link do post | comentar
Segunda-feira, 07.05.12

O desespero austero Grego

 

Foi depois de ver uma pequena reportagem na CNN enquanto fazia algum zapping pela televisão turca que me apercebi do novo limiar do desespero grego e como a austeridade pode encaminhar a um desespero real e maior: a morte.

 

O aumentar dos impostos, do número de desempregados e dos cortes nas pensões assim como na segurança social nacional vão para além do impacto básico sobre a economia familiar, chega a ter severas consequências sociais e psicológicas.

 

A economia grega está prestes a atingir o seu quinto ano de recessão e acompanhando esta espiral decrescente estão os inúmeros protestos e suicídios públicos - também referidos como 'debt suicides'.

 

Depois do caso de Apostolos Polyzonis, um empresário grego que após ter visto o seu pedido de um empréstimo para  pagar os estudos universitários da sua filha ser recusado, foi levado a perder o controlo e decidiu infligir fogo sobre si próprio à frente do próprio banco. Por sorte ou desfortuna - tudo depende de como Polyzonis encara agora o seu futuro, este sobreviveu depois de passar 7 dias internado no hospital sob cuidados intensivos.
Um dos últimos suicídios que foi alvo de grande mediatização, foi o de Dimitris Christoulas, um reformado de 77 anos que outrora fora um trabalhador no sector farmacêutico, e que pôs fim à sua vida perto do Parlamento Grego.
O seu acto foi justificado através de um último bilhete que deixou, onde ficou marcado este novo desespero grego e a possibilidade de um futuro vaticínio: 
“Não vejo outra solução senão esta forma digna de pôr fim à minha vida, para não acabar a vasculhar nos caixotes do lixo para me sustentar (...) Acho que os jovens sem futuro um dia pegarão em armas e enforcarão os traidores deste país na Praça Sintagma, como os italianos fizeram com Mussolini em 1945.”

 

Na Grécia, desde que a crise adquiriu as proporções preocupantes possíveis de percepcionar actualmente, os casos como o de Apostolos Polyzonis e de Christoulas  têm aumentado drasticamente.  Actualmente as linhas de apoio telefónico de prevenção do suicídio têm registado mais de um centena de chamadas diariamente.

 

Em Setembro do ano que passou, o ministro da Saúde da Grécia, Andreas Loverdos, disse que o índice de suicídios no país pode ter aumentado 40% nos primeiros meses de 2011, porém este número pode ser muito mais elevado do que as previsões lançadas publicamente.

 

 

O que se encontra aqui em questão não é um possível suicídio em massa, ou como alguns tendem a criticar "uma covardia em massa". Ninguém comete tal resignado acto sobre si de leve ânimo. O que leva as pessoas a tomarem tal decisão é a mesma que as leva a questionar os limites sustentáveis da qualidade de vida num país que se diz desenvolvido.
Para estes indivíduos o protesto sustentasse na base de que viver em condições tão extremas não é sequer  viver, por isso tendem para a morte na esperança de serem ouvidos e de se conseguirem libertar de um futuro que se pode tornar mais decadente do que o seu frágil presente. A falta de esperança e de perspectivas para a sua vida e para os seus familiares é o que os faz escolher a morte.

 

Não é correcto dizer a alguém que vive numa decadência à qual não está habituado e contra a qual sempre lutara em vida, que as suas acções só revelam covardia. Facto é que se entrarmos em comparação com a decadência prolongada que a população de um país subdesenvolvido tem de suportar, esta nova realidade europeia parece não ser justificação para tais actos de desespero, contudo há que manter em mente que para estas pessoas vindas de um país pertencente ao grupo dos mais desenvolvidos, com os novos desafios advindos da crise mundial o correcto e o justo perderam as suas normais definições e limites.

 

Ainda dentro desta dinâmica de pensamento deixo aqui transcrita uma afirmação dada à BBC Online do Brasil por Bakiari, pertencente a uma ONG de prevenção ao suicídio Klimaka: "O peso da crise é simplesmente maior do que a capacidade desta sociedade de sustentá-lo(...)".

 

 

 

 

 

Links úteis:
 

(Crise grega leva reformado ao suicídio na praça Sintagma de Atenas)

 http://www.ionline.pt/mundo/crise-grega-leva-reformado-ao-suicidio-na-praca-sintagma-atenas 

 

(Voluntários se mobilizam para combater onda de suicídios na Grécia)

 http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/10/111017_grecia_suicidios_mv.shtml 

 

(Austerity drives up suicide rate in debt-ridden Greece)

http://articles.cnn.com/2012-04-06/world/world_europe_greece-austerity-suicide_1_pharmacist-dimitris-christoulas-shot-suicide-note-anti-austerity?_s=PM:EUROPE

 

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais

 

 

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:02 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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