O 25 de Abril não é só português

Os cravos foram novamente lembrados há cinco dias. Uma vez mais se aglomeraram na Avenida da Liberdade diversos grupos de cidadãos que exibiam faixas e bandeiras em prol de uma causa que consideravam necessitar de atenção da agenda Pública e Mediática e sem a qual a democracia portuguesa não resplandeceria todo o seu encanto. É que mais que um ideal de pluralidade, justiça social ou liberdade; quem sonhou acordado durante o 25 de Abril, imaginou que a democratização se faria nas mais diversas áreas, principalmente em relação ao acto do sufrágio, mais especificamente às quatro letras que importunam qualquer status quo do poder estabelecido. Estivesse Rousseau entre nós e provavelmente nos recordaria que o homem só é verdadeiramente livre quando vota. O seu único pedaço de soberania na teia da Res Publica. Tendo em conta os múltiplos canais de participação política que surgiram nas democracias mais avançadas, considero excessiva a aplicação dessa crença à actualidade. Contudo, é inegável que o “votar” é o momento em que as relações de poder são comutadas e os representantes políticos sentem que são fiscalizados, avaliados e dependentes da vontade dos cidadãos.

 

Esta dependência momentânea é suficiente  para que os deputados acautelem a sua acção, o seu discurso e direccionem as suas palavras a quem os elege. Ora, se assim é, não é factor de admiração a pouca atenção dedicada pelos políticos portugueses aos imigrantes presentes no nosso país. Em todos os debates parlamentares ouvimos os mesmos destinatários de sempre: os portugueses ou cidadãos portugueses. Este facto como disse não é factor de admiração; é, sim, factor de indignação. Como se os contribuintes, trabalhadores ou empresários que tanto contribuem para o nosso país não fossem igualmente estrangeiros estabelecidos no nosso país e que sofrem como qualquer português com a austeridade e com os problemas económicos. Pior, muitas vezes são ainda tidos como responsáveis pela crise e usados como bodes expiatórios.

Em facto, o nosso país é formado por cidadãos e não por portugueses. Estes são importantes para a sustentabilidade e enriquecimento humano e cultural de Portugal mas, acima de tudo, são Homens portadores de direitos e deveres que merecem ser uma parte da decisão de quem governa o país de acolhimento e que legisla sobre o futuro de todos. Eles têm direito a um 25 de Abril, têm direito ao voto.

 

Observando e analisando a História, deparamo-nos com um progressivo alargamento do voto a homens e mulheres independentemente da sua escolaridade ou condição sócio-económica. Resta-nos continuar esta marcha civilizacional por uma democracia em aperfeiçoamento. Um passo lógico para quem já pode votar nas eleições autárquicas. E não se pede um círculo eleitoral imigrante como Passos Coelho chegou a abordar na campanha eleitoral, exige-se o voto dos imigrantes no correspondente círculo distrital.

 

No dia 25 de Abril, lá estavam eles unidos em grupo a gritar pela desumanização das leis de imigração europeias como se um Homem pudesse ser ilegal. Pediam também maior representação política. A faixa dizia que “Eu existo, com ou sem visto”, um tema que gostava de abordar posteriormente. Por agora o meu cravo presente neste texto é a defesa intransigente da cidadania plena dos imigrantes, uma liberdade só alcançada com a capacidade eleitoral, como defenderia Rousseau.

 

Frederico Aleixo

Licenciado em Ciência Política

 

publicado por Frederico Aleixo às 01:13 | link do post | comentar