Quarta-feira, 20.06.12

Uma outra visão sobre a Síria

Uma análise sobre o conflito interno sírio deve obedecer obrigatoriamente a uma visão fria, uma visão que respeite a sua complexidade, uma visão de Relações Internacionais. Afinal de contas, um jogo de xadrez envolve múltiplas e complexas jogadas bem expressas pela lenda de Lahur Sessa. Porém, convenhamos que o maniqueísmo entre peças pretas e peças brancas também não se adequa ao cenário noticiado por todo o mundo. Em situações semelhantes a esta exige-se a procura das peças cinzentas.

Em primeiro lugar é preciso contextualizar no espaço. O Médio Oriente será talvez a região mundial nevrálgica para perceber e, porque não, alimentar uma futurologia sobre as movimentações estratégicas das principais potências mundiais no contexto global. Tentarei ser sucinto: conflito israelo-árabe, Iraque, Afeganistão, Irão. Tudo somado e obtemos o resultado ou a matéria-prima petróleo. Se a esta equação adicionarmos outros factores como Primavera Árabe e fundamentalismo religioso, então apercebemo-nos que o rastilho está aceso e a explosão poderá estar por anos ou decénios, mas dificilmente será evitada.

Neste processo de montagem do puzzle, a Síria é mais uma peça na mão dos jogadores e não apenas um episódio avulso da história. O seu desfecho na minha opinião deixará antever como decorrerá a rede de relações entre os vários países e a contra-hegemonia numa visão unipolar que os Estados Unidos da América almejam desde a Guerra-Fria. Neste sentido, perceber o confronto entre regime sírio e rebeldes é perceber quem mais está envolvido.

Comecemos pelas forças em confronto. Os protestos contra o Governo começaram em Fevereiro de 2011 um pouco por todo o país, opondo civis à opressão do regime de Bashar Al-Assad. A população síria reivindicava reformas nas mais diversas áreas sociais, assim como a demissão de Assad; receberam a mão firme do poder instalado. A tensão agudiza-se e Assad numa manobra de tranquilização da comunidade internacional e dos próprios civis, afirma em Abril do mesmo ano que procederá ao levantamento do estado de emergência que vigora desde 1963, a uma reforma eleitoral e à elaboração de uma nova Constituição em Agosto. Contudo, o povo sírio sabe o valor das palavras proferidas pelo seu líder e prossegue a contestação que vai subindo de tom e agudizando a tensão vivida. Entretanto surgem o Conselho Nacional da Síria (CNS) composto por movimentos de oposição do Governo que pretendem uma solução pela via dialogante para o conflito, e o Exército de Libertação Sírio, com quartel-general em Hatay na Turquia, que agrega os rebeldes armados e vários desertores do exército sírio. O seu líder é o Coronel Ryad Al-Assad e pretendem apenas uma área de exclusão aérea onde possam reagrupar e recrutar soldados, pelo que se opõe a uma intervenção externa. Ainda não se percebeu muito bem a relação entre estas duas estruturas, porque por um lado temos uma irmandade muçulmana e os pró-americanos que pretendem a inclusão do exército rebelde no CNS; por outro temos o máximo representante, Burhan Ghalyoun, e seus correlegionários que defendem a manutenção da essência pacifista do respectivo órgão. Por agora, sabe-se apenas que houve coordenação de acções mas pouco mais entre ambos.

Por enquanto a força comandada por Ryad Al-Assad fica a dever ao exército regular que está muito bem equipado, é mais numeroso e é suportado pelo Irão e pela Rússia. Convém ainda referir que existem 14 agências de inteligência estaduais e uma milícia denominada shabiha formada por cidadãos na sua maioria alauítas, com cadastro que reprimem a troco de soldo.

Os confrontos mais violentos entre ambos estão correlacionados com os locais onde os protestos também têm sido mais visíveis. Os mais sangrentos têm sido verificados em Homs, Hama, Dera, Al-Shungur, Bou Kamal, subúrbios e áreas no seio de Damasco, assim como em cidades vizinhas desta. Neste momento, os rebeldes possuem mais influência no noroeste do país. A contestação é menos sentida em cidades-baluarte alauítas (grupo étnico do governo) na região montanhosa de Al-Jabal ou em Aleppo onde a repressão da shabiha é muito forte.

Mas esta luta pelo poder não seria tão noticiada não fossem os massacres que nos chegam pela televisão todos os dias. Neste âmbito, a corrente da opinião pública no geral tende a culpar o Governo pelos terríveis massacres que têm sido cometidos. É verdade, não nego. Mas eu também não ignoro os relatos de ONG's como a Human Rights Watch que acusam igualmente os rebeldes pelas atrocidades realizadas e pelo recrutamento de crianças-soldado. Não posso também ignorar que Houla possa ter sido uma retaliação governamental após massacres de aldeias alauítas vizinhas por parte de rebeldes, sendo que, a agência de imprensa Rede Voltaire aponta o dedo aos rebeldes como autores de vários massacres que usam como instrumento contra a imagem de Assad e para culpar o regime. E Houla poderá muito bem ter sido um deles. Por fim, um último dado em relação aos rebeldes. Ainda que o líder do Exército de Libertação Sírio afirme a sua independência face a grupos como o CNS ou a Irmandade Muçulmana, a verdade é que é inegável a presença no terreno de grupos terroristas como Al Qaeda e Jund-Al Sham. Até que ponto as fileiras de cada um dos envolvidos na oposição serão desconhecidas entre si...

Expostos os parágrafos anteriores, se a CNS quer uma solução pacífica e o Exército de Libertação Sírio não pretende intervenção externa, a quem é que esta interessará?  Dedicarei agora as minhas palavras ao ambiente externo que rodeia a Síria e a sua influência no modo como se têm desenvolvido os acontecimentos.

Os Estados Unidos e União Europeia já aprovaram sanções a Damasco mas o Conselho de Segurança não aprovou o artigo 41 da Carta das Nações Unidas devido ao veto da Rússia e da China. Por sua vez, no dia 2 de Novembro de 2011 a Liga dos Estados Árabes aprovou um plano em favor do fim da violência e protecção dos cidadãos sírios, tendo sido aceite por Assad. Porém, o seu não-cumprimento e a escalada da violência levaram a que a Síria fosse suspensa enquanto membro desta organização. Neste momento, o enviado-especial da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, encontra-se a mediar o conflito após o Governo Sírio ter aprovado o seu plano de 6 pontos, estando previsto entre outros a retirada do armamento pesado do terreno e o cessar-fogo.

Sejamos realistas, qualquer um dos Estados envolvidos na solução para o conflito esconde os seus verdadeiros intentos na sombra de uma suposta valorização dos direitos humanos e da liberdade síria. A mesma sombra que foi fotografada na Base das Lajes. A sombra da necessidade de controlo do Médio Oriente por parte dos Estados Unidos da América. Esta região do globo é claramente estratégica para os interesses norte-americanos, porque pretende condições vantajosas senão o controlo dos principais fornecedores de petróleo e porque do ponto de vista estratégico é uma jogada de isolamento do Irão, cuja cúpula política xiita tem excelentes relações com o poder alauíta sírio e é um dos seus principais apoios e suportes a todos os níveis. Reforço, o Irão é o objectivo final. Sim, o combate ao terrorismo há muito deixou de ser a principal prioridade da super-potência mundial, caso contrário não teria armado os rebeldes líbios (efectuam execuções sumárias todos os dias) nem estaria disposto a armar os rebeldes sírios como já foi admitido por Hillary Clinton. A História repete-se; os Estados Unidos repetem erros e entregam armas a potenciais inimigos futuros.

Mas o que leva a Rússia e a China a apoiarem Bashar Al-Assad? No que concerne a Moscovo, é necessário realçar que existe uma aliança de considerável duração que se materializa não só no fornecimento de armamento como na localização de uma base naval russa em Tartus. Porventura, alguns analistas referem que a Rússia sai a perder no seu apoio à Síria o ao Irão até porque a sua política energética poderia concorrer com estas potências no fornecimento do petróleo ao Ocidente, mas eu vejo de outro prisma. Com efeito, a velha desconfiança em relação aos Estados Unidos e até à Europa e o orgulho ferido próprio de uma antiga super-potência que quer voltar a sê-lo, levam-na a tentar prosseguir uma linha de alianças que tem sido abalada quer pela invasão ao Iraque, quer à Líbia, apenas para dar um exemplo. Visto deste modo, a Federação Russa não terá qualquer interesse em perder dois dos seus aliados em pleno Médio Oriente. Do lado chinês, existe o grande argumento económico e prende-se com o facto da Síria ser o seu 3.º maior importador, assim como argumento diplomático que não é de todo ingénuo, dado que uma mão lava a outra. A China apoiou a Síria na reivindicação de Golan Heights e neste momento veta resoluções na ONU, assim como a Síria esteve ao lado dos chineses em matérias como Tibete e direitos humanos.

O curioso é que este conflito agita igualmente águas muçulmanas. O Hamas pela voz do seu líder Ismail Haniyeh manifestou apoio aos rebeldes, uma opção que pode parecer lógica dada a maioria sunita nas fileiras do Exército de Libertação Sírio e na própria população síria mas que pode acarretar consequências imprevísiveis. Em primeiro lugar, o Hamas está fortemente dependente do financiamento iraniano, país xiita com boas relações com Assad e restantes membros alauítas do poder; em segundo lugar, o Hamas possui uma base de exílio na Síria, que pode vir a perder consoante o desfecho deste episódio; por fim, ainda que não fossem os melhores amigos, Hamas e Hezbollah nutriam respeito mútuo e o inimigo comum israelita, mas estas boas relações poderão também vir a ser afectadas pelo envolvimento destes dois grupos em lados contrários do conflito. Esta lógica parece residir na mente de Khaled Meshaal, líder do Hamas no exílio que se pretende manter à margem dos acontecimentos e negar qualquer participação nos protestos. O próprio Hanyieh viajou em Fevereiro a Teerão para fortalecer laços com o respectivo poder. 

 

Se reflectirmos sobre esta teia diplomática enunciada no parágrafo anterior, à primeira vista é tentador advogar que Israel pode beneficiar deste divide et impera entre os seus principais opositores. Quanto a mim é uma perspectiva ilusória e perigosa que pode trazer benefícios apenas a curto prazo. Não só o poder sírio poderá ficar nas mãos de muçulmanos com uma perspectiva igual ou mais radical que Ahmadinejad, Hamas ou Hezbollah, como terá de lidar com a crescente influência da Irmandade Muçulmana que também se estende ao Egipto. E a História está repleta de coligações negativas, pelo que qualquer peão considerado "adversário do Islão" poderá ter a sua reedição da Guerra dos Seis Dias, talvez com actores diferentes, porque entretanto o mapa geopolítico também se alterou. Um intervenção externa na Síria, à qual se opõe igualmente o Exército De Libertação Sírio, poderá desencadear acontecimentos imprevísiveis e mais depressa do que se possa imaginar.

Olhemos para o mapa, quem está em xeque? Eu diria que o povo sírio. Este está dependente das manobras políticas externas aos seus governantes e rebeldes. Não há peças brancas nem pretas, há cinzentas ou actores que representam o seu papel no xadrez das grandes potências. Concluindo a análise, não vislumbro melhor solução do que um plano de mediação internacional conduzido pelas principais potências com ascendente nos dois lados do conflito. O diálogo é melhor que qualquer combate fratricida em nome de interesses externos. A Síria não é a Líbia e o xeque-mate poderá representar uma nova guerra a uma escala muito perigosa para o globo.


 

Frederico Aleixo
Licenciado em Ciência Política
 

publicado por Frederico Aleixo às 01:28 | link do post | comentar
Quinta-feira, 07.06.12

A Mão Invisível

A mão invisível,
grande ferramenta
económica,
aquela mão
que nos corrige
a postura,
quando nos vemos
face a face
com a cara da amargura.

Quando
passamos pelo pedinte
que chora silenciosamente,
ou aquela mulher
que mostra os seios
na rua,
é demente.

Quando passamos
pelo menino
que anda ao lixo,
todas as noites
apanha a coloquial
carga até ganhar bicho.

Quando passamos
porque aquele rapaz
que trabalha desde
os oito,
ainda de cara doce,
se encaminha
para uma
mortalha precoce.

Quando tudo
o que vemos está
à nossa frente,
e os grandes lados,
são passados,
e ignorados.
Regurgitados,
e rejubilados,
caídos e abandonados,
como fruta podre no chão.

Que mesmo
longe da visão,
empesta
uma sala
daquele odor
peculiar
que nos faz passar
a odiar
ter nariz
e cheirar,
nos faz querer
cuspir
e vomitar,
para de lá sair
e não ter que
pensar
ou assistir.

Para uma terra sem fruta,
um mundo inorgânico
e biônico,
rasando tanto
o trágico
como o cómico,
com a sua perfeição
de papelão,
que tão bem
fica, nas fotos
a preto e branco.

 

 

António de Almeida Carvalho
Estudante - Licenciatura em Relações Internacionais

publicado por António de Almeida Carvalho às 13:07 | link do post | comentar
Terça-feira, 05.06.12

A democracia e o FMI

 

 

Há uns dias atrás, a directora do FMI, Christine Lagarde, deu uma entrevista ao jornal britânico Guardian. Na entrevista, a directora do FMI, ao falar sobre a Grécia, teve esta tirada: “Eu não pago impostos, mas vocês devem paga-los. “ Esta atitude, aliado ao seu salário anual de 467,940$, mais 83,760$ de ajudas, gerou uma onda de contestação nas redes sociais (http://www.facebook.com/GreeksVSLagarde). Christine Lagarde, tal como todos os funcionários da ONU (e suas ramificações), não pagam impostos, ao abrigo de um acordo internacional. Lagarde, na entrevista, afirmou também que sente mais pena das crianças do Níger do que dos idosos gregos (talvez desconhecendo que tal como no Níger também na Grécia já existem casos de fome). É sempre bom saber que, a directora de uma instituição mundial, faz diferenciação entre vidas humanas, invés de tratar todas de forma homogénea. 

 

Mas porquê pensar em democracia numa instituição internacional (e não apenas europeia), em que o seu director geral tem de ser europeu, e em que 11 vezes possíveis, 5 foram ocupados por franceses? Mas talvez, a senhora Lagarde, esteja a ser mal interpretada, talvez ela tenha tido apenas um momento da nostalgia durante a entrevista, recordando com saudade o período em que a França colonizou o Níger. Fruto desse colonialismo francês, e de sucessivos golpes militares, o Níger é hoje um dos países mais pobres do mundo e com um dos piores índices de desenvolvimento humano. Para agravar, o Níger foi alvo de um ajuste económico do FMI em 1994, apesar da resistência popular e da oposição. O director do FMI em 1994, um dos antecessores da francesa Christine Lagarde, era também o francês, Michel Camdessus. Parece que o Níger ainda continua a ser uma questão sensível para os franceses, que continuam a encontrar formas legais de perpetuar o seu legado colonialista em África. Se Christine Lagarde, tem pena das crianças do Níger por terem sido colonizadas pelos franceses, pela guerra civil, pelos golpes militares, pelo insucesso do programa económico do FMI em 94, por ser um dos países mais pobres e com pior IDH, então sim, eu subscrevo a sua empatia para com as crianças do Níger. Mas vou ainda mais além, porque sinto pena por todas as crianças e idosos que passam fome em qualquer parte do mundo (na Grécia também, mas a senhora Lagarde desconhece esses casos). Tenho pena porque os EUA, (por curiosidade o país com mais peso no FMI, com 17% de poder de voto) tenham possibilidade de acabar com o flagelo da fome mundial, bastando para isso despender o equivalente ao seu orçamento militar.

 

Por falar em militar, é interessante o apoio do FMI, com os seus famosos programas de ajuda económica, a ditaduras militares (mais um exemplo claro de democracia). No total foram 21 casos: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, El Salvador, Etiópia, Haiti, Indonésia, Quénia, Libéria, Malawi, Nigéria, Paquistão, Paraguai, Filipinas, Somália, África do Sul, Sudão, Síria, Tailândia e República do Congo. Escusado será dizer que tanto nestes casos como nos outros, estes programas falharam sempre, aliás, até prejudicaram muito mais os países. Estes programas impõem sempre medidas severas de contenção de gastos públicos, não considerando tais gastos como investimentos. O exemplo da Argentina é o melhor que ilustra esta situação. A Argentina teve que privatizar o sector da energia e da água, deixando ao interesse dos privados e estrangeiros, o preço da electricidade e da água (sectores estratégicos e fundamentais em qualquer economia). Só após a ruptura com o programa do FMI, a Argentina começou a mostrar resultados de económicos positivos. Talvez Portugal, e este governo em específico, aprendam com a História e percebam que os programas do FMI nunca funcionaram nem nunca vão funcionar, mas a avaliar pela convicção do ministro Paulo Portas, que defendeu que este programa vai funcionar e Portugal será um exemplo para o mundo, pois será o primeiro país da História, em que um programa do FMI funcionará. A História encarregar-se-á de mostrar, que tal como a Angela Merkel ao apontar Berlim na Rússia num mapa da Europa (talvez já a pensar numa possível expansão alemã ou talvez a apontar vingança à Rússia, visto que Hitler começou a perder a guerra, ao ser derrotado na Rússia), também Paulo Portas irá equivocar-se.

 

 

Pedro Silva
Estudante – Mestrado Ciência Política

 

publicado por Pedro Silva às 17:19 | link do post | comentar

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