Domingo, 09.09.12

O Fruto

Moedas
atiradas,
que se tornam
pedras
quando lançadas,
o escárnio
que carregam
queima,
mas queima mais
a fome,
surda chama.

Rastejamos
sem pudor
por esta lama,
celebrando
a anomia
a que se chama,
sociedade.

Quando se irá
levantar o homem
do chão
e pegar
pela própria
mão,
no que é seu
de direito,
falar alto e
encher o peito
do doce ar,
que exala
o feito
de seus pais
de seu país,
que um dia
levantando-se caiu
e não morreu,
meramente
subsistiu,
para que pudesse
este
levantar-se em fim,
e com um fim
proposto.

Erguer-se
amargamente,
a contra-gosto,
para colher
o fruto augusto
que diariamente
lhe é oferecido
e
que pronto
está
para ser colhido.



António de Almeida Carvalho
Estudante - Licenciatura em Relações Internacionais

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:26 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quinta-feira, 07.06.12

A Mão Invisível

A mão invisível,
grande ferramenta
económica,
aquela mão
que nos corrige
a postura,
quando nos vemos
face a face
com a cara da amargura.

Quando
passamos pelo pedinte
que chora silenciosamente,
ou aquela mulher
que mostra os seios
na rua,
é demente.

Quando passamos
pelo menino
que anda ao lixo,
todas as noites
apanha a coloquial
carga até ganhar bicho.

Quando passamos
porque aquele rapaz
que trabalha desde
os oito,
ainda de cara doce,
se encaminha
para uma
mortalha precoce.

Quando tudo
o que vemos está
à nossa frente,
e os grandes lados,
são passados,
e ignorados.
Regurgitados,
e rejubilados,
caídos e abandonados,
como fruta podre no chão.

Que mesmo
longe da visão,
empesta
uma sala
daquele odor
peculiar
que nos faz passar
a odiar
ter nariz
e cheirar,
nos faz querer
cuspir
e vomitar,
para de lá sair
e não ter que
pensar
ou assistir.

Para uma terra sem fruta,
um mundo inorgânico
e biônico,
rasando tanto
o trágico
como o cómico,
com a sua perfeição
de papelão,
que tão bem
fica, nas fotos
a preto e branco.

 

 

António de Almeida Carvalho
Estudante - Licenciatura em Relações Internacionais

publicado por António de Almeida Carvalho às 13:07 | link do post | comentar
Terça-feira, 05.06.12

A democracia e o FMI

 

 

Há uns dias atrás, a directora do FMI, Christine Lagarde, deu uma entrevista ao jornal britânico Guardian. Na entrevista, a directora do FMI, ao falar sobre a Grécia, teve esta tirada: “Eu não pago impostos, mas vocês devem paga-los. “ Esta atitude, aliado ao seu salário anual de 467,940$, mais 83,760$ de ajudas, gerou uma onda de contestação nas redes sociais (http://www.facebook.com/GreeksVSLagarde). Christine Lagarde, tal como todos os funcionários da ONU (e suas ramificações), não pagam impostos, ao abrigo de um acordo internacional. Lagarde, na entrevista, afirmou também que sente mais pena das crianças do Níger do que dos idosos gregos (talvez desconhecendo que tal como no Níger também na Grécia já existem casos de fome). É sempre bom saber que, a directora de uma instituição mundial, faz diferenciação entre vidas humanas, invés de tratar todas de forma homogénea. 

 

Mas porquê pensar em democracia numa instituição internacional (e não apenas europeia), em que o seu director geral tem de ser europeu, e em que 11 vezes possíveis, 5 foram ocupados por franceses? Mas talvez, a senhora Lagarde, esteja a ser mal interpretada, talvez ela tenha tido apenas um momento da nostalgia durante a entrevista, recordando com saudade o período em que a França colonizou o Níger. Fruto desse colonialismo francês, e de sucessivos golpes militares, o Níger é hoje um dos países mais pobres do mundo e com um dos piores índices de desenvolvimento humano. Para agravar, o Níger foi alvo de um ajuste económico do FMI em 1994, apesar da resistência popular e da oposição. O director do FMI em 1994, um dos antecessores da francesa Christine Lagarde, era também o francês, Michel Camdessus. Parece que o Níger ainda continua a ser uma questão sensível para os franceses, que continuam a encontrar formas legais de perpetuar o seu legado colonialista em África. Se Christine Lagarde, tem pena das crianças do Níger por terem sido colonizadas pelos franceses, pela guerra civil, pelos golpes militares, pelo insucesso do programa económico do FMI em 94, por ser um dos países mais pobres e com pior IDH, então sim, eu subscrevo a sua empatia para com as crianças do Níger. Mas vou ainda mais além, porque sinto pena por todas as crianças e idosos que passam fome em qualquer parte do mundo (na Grécia também, mas a senhora Lagarde desconhece esses casos). Tenho pena porque os EUA, (por curiosidade o país com mais peso no FMI, com 17% de poder de voto) tenham possibilidade de acabar com o flagelo da fome mundial, bastando para isso despender o equivalente ao seu orçamento militar.

 

Por falar em militar, é interessante o apoio do FMI, com os seus famosos programas de ajuda económica, a ditaduras militares (mais um exemplo claro de democracia). No total foram 21 casos: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, El Salvador, Etiópia, Haiti, Indonésia, Quénia, Libéria, Malawi, Nigéria, Paquistão, Paraguai, Filipinas, Somália, África do Sul, Sudão, Síria, Tailândia e República do Congo. Escusado será dizer que tanto nestes casos como nos outros, estes programas falharam sempre, aliás, até prejudicaram muito mais os países. Estes programas impõem sempre medidas severas de contenção de gastos públicos, não considerando tais gastos como investimentos. O exemplo da Argentina é o melhor que ilustra esta situação. A Argentina teve que privatizar o sector da energia e da água, deixando ao interesse dos privados e estrangeiros, o preço da electricidade e da água (sectores estratégicos e fundamentais em qualquer economia). Só após a ruptura com o programa do FMI, a Argentina começou a mostrar resultados de económicos positivos. Talvez Portugal, e este governo em específico, aprendam com a História e percebam que os programas do FMI nunca funcionaram nem nunca vão funcionar, mas a avaliar pela convicção do ministro Paulo Portas, que defendeu que este programa vai funcionar e Portugal será um exemplo para o mundo, pois será o primeiro país da História, em que um programa do FMI funcionará. A História encarregar-se-á de mostrar, que tal como a Angela Merkel ao apontar Berlim na Rússia num mapa da Europa (talvez já a pensar numa possível expansão alemã ou talvez a apontar vingança à Rússia, visto que Hitler começou a perder a guerra, ao ser derrotado na Rússia), também Paulo Portas irá equivocar-se.

 

 

Pedro Silva
Estudante – Mestrado Ciência Política

 

publicado por Pedro Silva às 17:19 | link do post | comentar
Segunda-feira, 28.05.12

O desnorte europeu ou a dicotomia legalidade/ legitimidade

 

 

As mais recentes notícias vinda a público sobre o modus operandi europeu no que concerne à sua estratégia de combate à crise das dívidas soberanas recordaram-me a relevância da distinção entre legalidade e legitimidade. Entenda-se, uma lei não é obrigatoriamente legítima, principalmente quando não representativa do bem-estar dos cidadãos; uma das funções do Estado. Uma lei pode até estar imbuída de imoralidade, ou pior, pode levar a uma inversão de valores mesmo se provinda de altas instâncias de países tidos como democráticos e subscritores do primado dos Direitos Humanos.

O caso grego é disso exemplo. Quando leio que um Hospital grego ponderou reter uma criança pelo facto de uma mãe não ter a capacidade financeira de pagar o custo da cesariana ou quando leio que são criados campos de detenção para imigrante ilegais, quais criminosos, vislumbro um futuro que regressa ao passado e nos propõe a um retrocesso civilizacional. É impossível não apelar ao bom-senso quando se pede a um povo que abdique de quase todos os seus direitos adquiridos e da própria dignidade em nome de uma dívida cujos juros são à partida impagáveis. Principalmente quando essas pessoas não participaram nos crimes financeiros cometidos por aqueles que os governam. Mas não foram eles que os elegeram? Duvido que alguém tenha depositado o seu voto num partido que tivesse como promessa eleitoral escamotear as suas contas públicas com a ajuda de bancos de Wall Street. Sim, exacto, aqueles que provocaram a segunda maior crise financeira da história e saíram ilesos, tendo até representantes em elevados cargos governativos nos EUA.

O papel da Alemanha nisto tudo, ao contrário do que o seu embaixador em Portugal possa dizer - refiro-me a Passos Coelho -, é de inegável discussão. Em primeiro lugar temos de nos perguntar se queremos a progressão da União Europeia ou o seu fim. Coloquemos as coisas preto no branco sem lugar a cinzentos: só há uma maneira do projecto europeu não se desintegrar e esse caminho envolve um federalismo financeiro e económico que se adeque ao uso de uma moeda única. Esta não é definitivamente a orientação alemã. Depois pensemos na incongruência de uma saúde financeira saudável sem uma política de crescimento séria que não se baseie em salários baixos, tectos a défices e a dívidas que levarão inevitavelmente à destruição de uma Europa Social ou a facilitação de despedimentos. Sem pujança económica, acredito que as contas de um Estado possam atingir o objectivo do PEC  mas acarretarão igualmente que este engorde o dobro passado um curto espaço de tempo, dada a fraca estrutura económica, a diminuição da receita fiscal e o aumento de apoios sociais em conjugação com outras despesas. Em terceiro, é preciso dizer que todas estas medidas de austeridade são atentados à democracia. O demos grego não votou em bancos que provocaram a crise, não votou no governo alemão e, por incrível que pareça, não votou no Executivo europeu. Estes órgãos não foram sufragados pelo eleitorado da Grécia e impõem medidas sufocantes que não contribuem para a recuperação do país. Onde está a perspectiva ascendente do poder? Para finalizar, a Alemanha tem memória curta. Quando provocou a Segunda Grande Guerra e saiu derrotada, não só viu perdoada uma parcela muito significativa da sua dívida como ainda foi poupada a muitos custos de reparações. Mais, foi a ajuda do Plano Marshall e a sua inclusão no projecto europeu que permitiram que se levantasse e se tornasse na grande potência económica europeia.

Reflictamos neste ponto: a Europa não tem rumo. Pior, a Europa não tem memória histórica. A Europa que sempre se orgulhou do seu Estado-Social e dos respectivos direitos sociais, avança agora para um liberalismo perigoso e desumano. A Europa que sempre se quis destacar como uma potência moralista e exemplar no que concerne ao humanismo da sua política externa ameaça prosseguir uma política xenófoba de imigração. Uma Europa reconstruída com base na ajuda mútua suportada por um projecto europeu está agora em processo de auto-destruição por negar a solidariedade aos países periféricos.

Esta é a grande diferença entre legitimidade e legalidade: a primeira aproxima-se dos príncipios norteadores da democracia e da vontade de assegurar a justiça e o bem-estar aos representados; a segunda provém de tiranias que pretendem assegurar os interesses dos representantes de uma minoria oligarca. Cabe à Europa seguir um dos caminhos desta bifurcação.

 

 

Frederico Aleixo
Licenciado em Ciência Política 

publicado por Frederico Aleixo às 02:06 | link do post | comentar
Quarta-feira, 16.05.12

China : Que futuro ?

‘’ A economia chinesa deverá crescer 8,2 por cento em 2012 e 8,6 por cento em 2013, segundo a previsão difundida hoje pelo Banco Mundial.’’

  

Crescimento económico, investimento global, comércio, tudo isto caracteriza a China de hoje em dia.

    A dinâmica de crescimento da economia chinesa nos últimos 50 anos está entre os desenvolvimentos importantes do século XX. China tem experimentado uma série de políticas e as reformas institucionais, algumas das quais envolveram deslocamentos abruptos do seu país o que influenciou a ordem econômica, social, cultural e político. A verdadeira razão de ser para estas reformas foi para promover o desenvolvimento económico rápido e uma distribuição mais igualitária da riqueza, para atingir autossuficiência nacional. 

  O verdadeiro milagre de desenvolvimento da China ainda está nos seus primeiros passos.

  A expressão «um país, dois sistemas» já não se refere tanto a divisão entra a China e Taiwan, mas sobretudo ao dualismo do ‘’mercado-leninismo”. Para o Ocidente existe um axioma da Historia segundo o qual nenhum país capitalista consegue sustentar o paradoxo de uma economia capitalista, aliada a um governo autoritário – e no entanto é precisamente essa a verdadeira realidade da China. As potências estrangeiras nunca conseguiram penetrar nas inescrutáveis políticas imperiais e portanto o Ocidente deve aceitar a ‘’China como ela é e não como querem que ela seja’’.

  Desde a quase simultaneidade entra a revolta na Praça de Tiananmen e a desintegração da União Soviética, a China e a Rússia têm seguido duas trajetórias muito diferentes. O comunismo chinês foi abandonado por escolha estratégica e substituído, não por um neo-conservadorismo ao estilo russo, nem por um capitalismo apocalíptico, mas sim, por uma transição rumo ao ‘’pacto asiático’’. 

   Por mais ajustamentos ideológicos que o partido faça, continua a haver vários ‘’nãos’’ absolutos e invioláveis: não á liberdade religiosa para os cerca de 40 milhões de cristãos que existem na China, nem para os 30 milhões de muçulmanos.

   A China assistiu já a uma toxicodependência generalizada em relação ao ópio e não irá permitir que a máxima de Marx ‘’ópio do povo’’, se espalhe livremente.

  O PCC é mais poderoso que, mais sofisticado e mais complexo do que qualquer dinastia da história chinesa. Em vez de terem crianças a governar, tem hoje ‘’imperadores’’ MBA que pensam em termos de planos empresariais. A China está dotada de uma nova elite, uma geração que viram os seus familiares sofreram as amarguras do maoismo, que se sacrificou por eles, uma geração mais preparada, mais calculista, capaz de analisar e compreender as fraquezas do Homem e as ambições de uma sociedade cada vez mais exigente, que é controlada com um pulso de ferro.

 

  Contudo, os únicos regimes mais corruptos do que os regimes onde vários partidos rivalizam pelo poder são aqueles onde um partido detém o poder todo. A corrupção na China vai desde a venda de cargos governamentais, a interferência em pequenas e grandes empresas, ate a pirataria fomentada pelo Exército chinês, com vista a angariar fundos.

  Contudo, o povo chinês (no geral) prefere ter um Estado forte do que um Estado fraco, passível de ser explorado pelas potências estrangeira. Em 2004 houve na China 74 000 manifestações, foram no geral contra as alterações dos preços, expropriação de terras e os direitos no local de trabalho – e não uma crescente onde revolucionária contra o Governo chinês.

   A China só irá dar ouvidos aos apelos de democratização, ou qualquer outra mudança sistémica, quando alcançar a meta de uma população com rendimentos médios por volta de 2050.De facto, a democracia talvez chegue a China (se é que alguma vez chegará),mas a corrida e puramente interna, sem dar azo a exigências externas.

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                            Miguel Màximo

                                                                                                                                                              Estudante - Licenciatura de Ciência Política

publicado por miguelmaximo às 19:30 | link do post | comentar
Domingo, 13.05.12

"The First Gay President" - a controvérsia.

A Newsweek Magazine publicou mais uma cover controversa!
Depois da muito provocadora capa com Sara Palin em 2009, da muito criticada publicação com a foto pouco favorecida de Michele Bachmann acompanhada pela headline "Queen of Range" em 2011, e da manchete "Why are Obama's Critics so dumb?", na edição de Janeiro deste ano, a Newsweek não se conteve com as últimas notícias da actualidade norte-americana.

Desta feita o marketing controverso desta revista focou-se nas últimas palavras de apoio ao casamento gay por parte de Barack Obama, ilustrada por uma imagem do presidente fazendo uso de uma  auréola com as cores da bandeira do movimento LGBT, e dando lugar à seguinte frase "The First Gay President".

 

 

No seu artigo de capa, Andrew Sullivan, o popular e abertamente homossexual blogger político, defende que o comunicado feito pelo Presidente Obama estava há anos para ser feito.  Ao longo da sua cover story Sullivan  faz comparações  entre as semelhanças partilhadas pelo Presidente e a comunidade gay:  "He had to discover his black identity and then reconcile it with his white family, just as gays discover their homosexual identity and then have to reconcile it with their heterosexual family".


 Posteriormente Sullivan destaca a relevância do aval dado pelo presidente através de um texto publicado no site "The Daily Beast", onde afirma: "Today Obama did more than make a logical step. He let go of fear (...) He is clearly prepared to let the political chips fall as they may. That's why we elected him. That's the change we believed in".

 

Apesar das palavras sábias ou menos sábias de Andrew Sullivan a questionável capa mantém-se e faz uso do seu primordial propósito: apelar ao criticismo e aumentar as vendas.

Contudo, a título pessoal tenho de acrescentar que para além deste propósito natural de comercialização, a imagem e o título não são os mais bem-vindos. Esta ideia de "First gay president" pode remeter para a visão estupidificada de que quem defende  a conquista de direitos igualitários na sociedade tem de ser automaticamente rotulado na mesma medida.

 

 

 

 

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais

 

 

 

 

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:44 | link do post | comentar
Segunda-feira, 07.05.12

O desespero austero Grego

 

Foi depois de ver uma pequena reportagem na CNN enquanto fazia algum zapping pela televisão turca que me apercebi do novo limiar do desespero grego e como a austeridade pode encaminhar a um desespero real e maior: a morte.

 

O aumentar dos impostos, do número de desempregados e dos cortes nas pensões assim como na segurança social nacional vão para além do impacto básico sobre a economia familiar, chega a ter severas consequências sociais e psicológicas.

 

A economia grega está prestes a atingir o seu quinto ano de recessão e acompanhando esta espiral decrescente estão os inúmeros protestos e suicídios públicos - também referidos como 'debt suicides'.

 

Depois do caso de Apostolos Polyzonis, um empresário grego que após ter visto o seu pedido de um empréstimo para  pagar os estudos universitários da sua filha ser recusado, foi levado a perder o controlo e decidiu infligir fogo sobre si próprio à frente do próprio banco. Por sorte ou desfortuna - tudo depende de como Polyzonis encara agora o seu futuro, este sobreviveu depois de passar 7 dias internado no hospital sob cuidados intensivos.
Um dos últimos suicídios que foi alvo de grande mediatização, foi o de Dimitris Christoulas, um reformado de 77 anos que outrora fora um trabalhador no sector farmacêutico, e que pôs fim à sua vida perto do Parlamento Grego.
O seu acto foi justificado através de um último bilhete que deixou, onde ficou marcado este novo desespero grego e a possibilidade de um futuro vaticínio: 
“Não vejo outra solução senão esta forma digna de pôr fim à minha vida, para não acabar a vasculhar nos caixotes do lixo para me sustentar (...) Acho que os jovens sem futuro um dia pegarão em armas e enforcarão os traidores deste país na Praça Sintagma, como os italianos fizeram com Mussolini em 1945.”

 

Na Grécia, desde que a crise adquiriu as proporções preocupantes possíveis de percepcionar actualmente, os casos como o de Apostolos Polyzonis e de Christoulas  têm aumentado drasticamente.  Actualmente as linhas de apoio telefónico de prevenção do suicídio têm registado mais de um centena de chamadas diariamente.

 

Em Setembro do ano que passou, o ministro da Saúde da Grécia, Andreas Loverdos, disse que o índice de suicídios no país pode ter aumentado 40% nos primeiros meses de 2011, porém este número pode ser muito mais elevado do que as previsões lançadas publicamente.

 

 

O que se encontra aqui em questão não é um possível suicídio em massa, ou como alguns tendem a criticar "uma covardia em massa". Ninguém comete tal resignado acto sobre si de leve ânimo. O que leva as pessoas a tomarem tal decisão é a mesma que as leva a questionar os limites sustentáveis da qualidade de vida num país que se diz desenvolvido.
Para estes indivíduos o protesto sustentasse na base de que viver em condições tão extremas não é sequer  viver, por isso tendem para a morte na esperança de serem ouvidos e de se conseguirem libertar de um futuro que se pode tornar mais decadente do que o seu frágil presente. A falta de esperança e de perspectivas para a sua vida e para os seus familiares é o que os faz escolher a morte.

 

Não é correcto dizer a alguém que vive numa decadência à qual não está habituado e contra a qual sempre lutara em vida, que as suas acções só revelam covardia. Facto é que se entrarmos em comparação com a decadência prolongada que a população de um país subdesenvolvido tem de suportar, esta nova realidade europeia parece não ser justificação para tais actos de desespero, contudo há que manter em mente que para estas pessoas vindas de um país pertencente ao grupo dos mais desenvolvidos, com os novos desafios advindos da crise mundial o correcto e o justo perderam as suas normais definições e limites.

 

Ainda dentro desta dinâmica de pensamento deixo aqui transcrita uma afirmação dada à BBC Online do Brasil por Bakiari, pertencente a uma ONG de prevenção ao suicídio Klimaka: "O peso da crise é simplesmente maior do que a capacidade desta sociedade de sustentá-lo(...)".

 

 

 

 

 

Links úteis:
 

(Crise grega leva reformado ao suicídio na praça Sintagma de Atenas)

 http://www.ionline.pt/mundo/crise-grega-leva-reformado-ao-suicidio-na-praca-sintagma-atenas 

 

(Voluntários se mobilizam para combater onda de suicídios na Grécia)

 http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/10/111017_grecia_suicidios_mv.shtml 

 

(Austerity drives up suicide rate in debt-ridden Greece)

http://articles.cnn.com/2012-04-06/world/world_europe_greece-austerity-suicide_1_pharmacist-dimitris-christoulas-shot-suicide-note-anti-austerity?_s=PM:EUROPE

 

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais

 

 

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:02 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Quinta-feira, 03.05.12

Portugal sem fundo

O que será deste futuro? Falo do futuro que nos é próximo e que outrora não era tão inquietante quanto o futuro longínquo, porque esse encontrava-se longe de mais para se prever.

 

Somos jovens, somos inexperientes de mais porque nem a experiência que precisamos nos é cedida. Estudamos, caminhamos longos anos num sistema educacional que nos cultiva e fornece instrumentos para o nosso desenvolvimento, mas que no fim - entre diplomas a mais ou a menos - não nos assegura oportunidades nesta decadente realidade.

 

"O futuro somos nós" - esta velha frase encontra-se desgastada por anos preenchidos de crises económicas, sociais e políticas.

Nada nos é garantido, mas também nada nos é possibilitado.

 

Resta-nos acreditar que temos algo de novo para oferecer e que as oportunidades nos serão dadas, eventualmente.

Resta-nos ser empreendedores do nosso futuro. Não nos podemos acomodar.  Não penhoremos o nosso presente em prol das dificuldades, nem nos limitemos a sonhar apenas durante a noite entre sonos mal dormidos e turnos de um trabalho que não nos preenche. Não fiquemos assim, sem perspectivas do que somos ou do que nos tornaremos. Ganhemos ânimo e folgo para as batalhas diárias que agora nos se apresentam! O optimismo não está ultrapassado. Temos agora de procurar soluções que não nos seriam tão evidentes há uns anos atrás, pois éramos novos demais para nos preocuparmos.

 

Falo da confusão em que nos encontramos: sem saber se o futuro (o próximo e não apenas o longínquo) que idealizámos e para o qual tanto lutámos será possível de concretização.

 

Falo do Portugal sem fundo em que nos tornámos. Os tempos são difíceis, os trocos no nosso bolso escasseiam e as ideias são demais para se concretizarem. Vivemos num marasmo que só uma crise tão aguda quanto esta poderia tornar possível.

 

Mas será assim tão tortuoso este caminho que o sopro das impossibilidades foi capaz de apagar toda a réstia de esperança num Portugal sustentável?

 

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Quarta-feira, 02.05.12

Made in USA

 

Esqueçam a Apple, a MacDonald’s ou a Coca Cola. A empresa norte-americana que mais exporta é a Casa Branca, e a sua mercadoria mais valiosa é a corrupção politica. A corrupção não é uma invenção norte-americana, é um problema intrínseco à invenção da Democracia. Mas a intervenção política (entenda-se aqui, trocar líderes democraticamente eleitos por marionetas ao serviço das corporações) aliada à corrupção, é algo tão americano como a tarte de maçã.  Mas chega de difamação e passemos aos factos históricos:

 

- Os EUA foram o único país a usar bombas atómicas


- Foram o único país a ser condenado por «uso ilegítimo da força» pelo Tribunal Internacional de Justiça                                                                 

– Juntamente com Israel votaram contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional, na ONU em Dezembro de 1987                                                                 

               

- Mossadegh, Allende e Patrice Lumumba foram apenas uns dos muitos líderes que morreram por não corresponderem aos interesses norte-americanos

 

- O uso do agente laranja e os desfolhantes na guerra do Vietname fizeram com que 500 000 crianças nascessem deformadas

 

- Desde 1945, os EUA tentaram derrubar mais de 50 governos (democraticamente eleitos)

 

- O embargo económico a Cuba, o mais longo na História da Humanidade, começou aquando do derrube do fantoche americano, Fulencio Batista, por parte de Fidel Castro. Está estimado que o embargo tenha custado a Cuba, 750 biliões de dólares americanos

 

-Desde a Segunda Guerra Mundial até ao fim da Jugoslávia, há registo de 26 bombardeamentos norte-americanos sobre outras nações

 

- O orçamento militar que o Prémio Nobel da Paz, Barack Obama, aprovou foi o maior da História da Humanidade. Este orçamento era o suficiente para acabar com a fome em África 3 vezes. São gastos 200 milhões de dólares anualmente só em ar condicionado para os militares estacionados no Médio Oriente.

 

- O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto gazeavam os Curdos em 1988

 

- Bin Laden, era uma ameaça e está morto agora. Pergunto-me se ele constituía uma ameaça quando o treinaram para combater os soviéticos

 

Uma das bandeiras de Barack Obama era o fecho de Guantánamo. Até hoje viu-se pouco ou nada do líder do Free World, e prémio Nobel da Paz. Não se espera que um só Homem consiga a paz mundial, mas espera-se que mantenha a integridade e não se torne um hipócrita. Parece que o American Dream só faz sentido se estivermos a dormir como a Bela Adormecida.

 

Termino o meu texto referindo que não faço parte da geração do ”Yes we can” pertenço antes à geração do “Just do it”

 

 

 

Pedro Silva

estudante - Mestrado em Ciência Política  

publicado por Pedro Silva às 20:26 | link do post | comentar | ver comentários (9)
Terça-feira, 01.05.12

O 25 de Abril não é só português

Os cravos foram novamente lembrados há cinco dias. Uma vez mais se aglomeraram na Avenida da Liberdade diversos grupos de cidadãos que exibiam faixas e bandeiras em prol de uma causa que consideravam necessitar de atenção da agenda Pública e Mediática e sem a qual a democracia portuguesa não resplandeceria todo o seu encanto. É que mais que um ideal de pluralidade, justiça social ou liberdade; quem sonhou acordado durante o 25 de Abril, imaginou que a democratização se faria nas mais diversas áreas, principalmente em relação ao acto do sufrágio, mais especificamente às quatro letras que importunam qualquer status quo do poder estabelecido. Estivesse Rousseau entre nós e provavelmente nos recordaria que o homem só é verdadeiramente livre quando vota. O seu único pedaço de soberania na teia da Res Publica. Tendo em conta os múltiplos canais de participação política que surgiram nas democracias mais avançadas, considero excessiva a aplicação dessa crença à actualidade. Contudo, é inegável que o “votar” é o momento em que as relações de poder são comutadas e os representantes políticos sentem que são fiscalizados, avaliados e dependentes da vontade dos cidadãos.

 

Esta dependência momentânea é suficiente  para que os deputados acautelem a sua acção, o seu discurso e direccionem as suas palavras a quem os elege. Ora, se assim é, não é factor de admiração a pouca atenção dedicada pelos políticos portugueses aos imigrantes presentes no nosso país. Em todos os debates parlamentares ouvimos os mesmos destinatários de sempre: os portugueses ou cidadãos portugueses. Este facto como disse não é factor de admiração; é, sim, factor de indignação. Como se os contribuintes, trabalhadores ou empresários que tanto contribuem para o nosso país não fossem igualmente estrangeiros estabelecidos no nosso país e que sofrem como qualquer português com a austeridade e com os problemas económicos. Pior, muitas vezes são ainda tidos como responsáveis pela crise e usados como bodes expiatórios.

Em facto, o nosso país é formado por cidadãos e não por portugueses. Estes são importantes para a sustentabilidade e enriquecimento humano e cultural de Portugal mas, acima de tudo, são Homens portadores de direitos e deveres que merecem ser uma parte da decisão de quem governa o país de acolhimento e que legisla sobre o futuro de todos. Eles têm direito a um 25 de Abril, têm direito ao voto.

 

Observando e analisando a História, deparamo-nos com um progressivo alargamento do voto a homens e mulheres independentemente da sua escolaridade ou condição sócio-económica. Resta-nos continuar esta marcha civilizacional por uma democracia em aperfeiçoamento. Um passo lógico para quem já pode votar nas eleições autárquicas. E não se pede um círculo eleitoral imigrante como Passos Coelho chegou a abordar na campanha eleitoral, exige-se o voto dos imigrantes no correspondente círculo distrital.

 

No dia 25 de Abril, lá estavam eles unidos em grupo a gritar pela desumanização das leis de imigração europeias como se um Homem pudesse ser ilegal. Pediam também maior representação política. A faixa dizia que “Eu existo, com ou sem visto”, um tema que gostava de abordar posteriormente. Por agora o meu cravo presente neste texto é a defesa intransigente da cidadania plena dos imigrantes, uma liberdade só alcançada com a capacidade eleitoral, como defenderia Rousseau.

 

Frederico Aleixo

Licenciado em Ciência Política

 

publicado por Frederico Aleixo às 01:13 | link do post | comentar | ver comentários (5)

"Zona Crítica"

é um projecto recente que pretende fomentar uma análise política, económica e social sobre a realidade nacional/internacional, sem necessariamente seguir uma orientação partidária.

Colaboradores

Joana Graça Feliciano (Administradora)

António de Almeida Carvalho (Colaborador)

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