Domingo, 09.09.12

O Fruto

Moedas
atiradas,
que se tornam
pedras
quando lançadas,
o escárnio
que carregam
queima,
mas queima mais
a fome,
surda chama.

Rastejamos
sem pudor
por esta lama,
celebrando
a anomia
a que se chama,
sociedade.

Quando se irá
levantar o homem
do chão
e pegar
pela própria
mão,
no que é seu
de direito,
falar alto e
encher o peito
do doce ar,
que exala
o feito
de seus pais
de seu país,
que um dia
levantando-se caiu
e não morreu,
meramente
subsistiu,
para que pudesse
este
levantar-se em fim,
e com um fim
proposto.

Erguer-se
amargamente,
a contra-gosto,
para colher
o fruto augusto
que diariamente
lhe é oferecido
e
que pronto
está
para ser colhido.



António de Almeida Carvalho
Estudante - Licenciatura em Relações Internacionais

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:26 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Segunda-feira, 28.05.12

O desnorte europeu ou a dicotomia legalidade/ legitimidade

 

 

As mais recentes notícias vinda a público sobre o modus operandi europeu no que concerne à sua estratégia de combate à crise das dívidas soberanas recordaram-me a relevância da distinção entre legalidade e legitimidade. Entenda-se, uma lei não é obrigatoriamente legítima, principalmente quando não representativa do bem-estar dos cidadãos; uma das funções do Estado. Uma lei pode até estar imbuída de imoralidade, ou pior, pode levar a uma inversão de valores mesmo se provinda de altas instâncias de países tidos como democráticos e subscritores do primado dos Direitos Humanos.

O caso grego é disso exemplo. Quando leio que um Hospital grego ponderou reter uma criança pelo facto de uma mãe não ter a capacidade financeira de pagar o custo da cesariana ou quando leio que são criados campos de detenção para imigrante ilegais, quais criminosos, vislumbro um futuro que regressa ao passado e nos propõe a um retrocesso civilizacional. É impossível não apelar ao bom-senso quando se pede a um povo que abdique de quase todos os seus direitos adquiridos e da própria dignidade em nome de uma dívida cujos juros são à partida impagáveis. Principalmente quando essas pessoas não participaram nos crimes financeiros cometidos por aqueles que os governam. Mas não foram eles que os elegeram? Duvido que alguém tenha depositado o seu voto num partido que tivesse como promessa eleitoral escamotear as suas contas públicas com a ajuda de bancos de Wall Street. Sim, exacto, aqueles que provocaram a segunda maior crise financeira da história e saíram ilesos, tendo até representantes em elevados cargos governativos nos EUA.

O papel da Alemanha nisto tudo, ao contrário do que o seu embaixador em Portugal possa dizer - refiro-me a Passos Coelho -, é de inegável discussão. Em primeiro lugar temos de nos perguntar se queremos a progressão da União Europeia ou o seu fim. Coloquemos as coisas preto no branco sem lugar a cinzentos: só há uma maneira do projecto europeu não se desintegrar e esse caminho envolve um federalismo financeiro e económico que se adeque ao uso de uma moeda única. Esta não é definitivamente a orientação alemã. Depois pensemos na incongruência de uma saúde financeira saudável sem uma política de crescimento séria que não se baseie em salários baixos, tectos a défices e a dívidas que levarão inevitavelmente à destruição de uma Europa Social ou a facilitação de despedimentos. Sem pujança económica, acredito que as contas de um Estado possam atingir o objectivo do PEC  mas acarretarão igualmente que este engorde o dobro passado um curto espaço de tempo, dada a fraca estrutura económica, a diminuição da receita fiscal e o aumento de apoios sociais em conjugação com outras despesas. Em terceiro, é preciso dizer que todas estas medidas de austeridade são atentados à democracia. O demos grego não votou em bancos que provocaram a crise, não votou no governo alemão e, por incrível que pareça, não votou no Executivo europeu. Estes órgãos não foram sufragados pelo eleitorado da Grécia e impõem medidas sufocantes que não contribuem para a recuperação do país. Onde está a perspectiva ascendente do poder? Para finalizar, a Alemanha tem memória curta. Quando provocou a Segunda Grande Guerra e saiu derrotada, não só viu perdoada uma parcela muito significativa da sua dívida como ainda foi poupada a muitos custos de reparações. Mais, foi a ajuda do Plano Marshall e a sua inclusão no projecto europeu que permitiram que se levantasse e se tornasse na grande potência económica europeia.

Reflictamos neste ponto: a Europa não tem rumo. Pior, a Europa não tem memória histórica. A Europa que sempre se orgulhou do seu Estado-Social e dos respectivos direitos sociais, avança agora para um liberalismo perigoso e desumano. A Europa que sempre se quis destacar como uma potência moralista e exemplar no que concerne ao humanismo da sua política externa ameaça prosseguir uma política xenófoba de imigração. Uma Europa reconstruída com base na ajuda mútua suportada por um projecto europeu está agora em processo de auto-destruição por negar a solidariedade aos países periféricos.

Esta é a grande diferença entre legitimidade e legalidade: a primeira aproxima-se dos príncipios norteadores da democracia e da vontade de assegurar a justiça e o bem-estar aos representados; a segunda provém de tiranias que pretendem assegurar os interesses dos representantes de uma minoria oligarca. Cabe à Europa seguir um dos caminhos desta bifurcação.

 

 

Frederico Aleixo
Licenciado em Ciência Política 

publicado por Frederico Aleixo às 02:06 | link do post | comentar
Segunda-feira, 07.05.12

O desespero austero Grego

 

Foi depois de ver uma pequena reportagem na CNN enquanto fazia algum zapping pela televisão turca que me apercebi do novo limiar do desespero grego e como a austeridade pode encaminhar a um desespero real e maior: a morte.

 

O aumentar dos impostos, do número de desempregados e dos cortes nas pensões assim como na segurança social nacional vão para além do impacto básico sobre a economia familiar, chega a ter severas consequências sociais e psicológicas.

 

A economia grega está prestes a atingir o seu quinto ano de recessão e acompanhando esta espiral decrescente estão os inúmeros protestos e suicídios públicos - também referidos como 'debt suicides'.

 

Depois do caso de Apostolos Polyzonis, um empresário grego que após ter visto o seu pedido de um empréstimo para  pagar os estudos universitários da sua filha ser recusado, foi levado a perder o controlo e decidiu infligir fogo sobre si próprio à frente do próprio banco. Por sorte ou desfortuna - tudo depende de como Polyzonis encara agora o seu futuro, este sobreviveu depois de passar 7 dias internado no hospital sob cuidados intensivos.
Um dos últimos suicídios que foi alvo de grande mediatização, foi o de Dimitris Christoulas, um reformado de 77 anos que outrora fora um trabalhador no sector farmacêutico, e que pôs fim à sua vida perto do Parlamento Grego.
O seu acto foi justificado através de um último bilhete que deixou, onde ficou marcado este novo desespero grego e a possibilidade de um futuro vaticínio: 
“Não vejo outra solução senão esta forma digna de pôr fim à minha vida, para não acabar a vasculhar nos caixotes do lixo para me sustentar (...) Acho que os jovens sem futuro um dia pegarão em armas e enforcarão os traidores deste país na Praça Sintagma, como os italianos fizeram com Mussolini em 1945.”

 

Na Grécia, desde que a crise adquiriu as proporções preocupantes possíveis de percepcionar actualmente, os casos como o de Apostolos Polyzonis e de Christoulas  têm aumentado drasticamente.  Actualmente as linhas de apoio telefónico de prevenção do suicídio têm registado mais de um centena de chamadas diariamente.

 

Em Setembro do ano que passou, o ministro da Saúde da Grécia, Andreas Loverdos, disse que o índice de suicídios no país pode ter aumentado 40% nos primeiros meses de 2011, porém este número pode ser muito mais elevado do que as previsões lançadas publicamente.

 

 

O que se encontra aqui em questão não é um possível suicídio em massa, ou como alguns tendem a criticar "uma covardia em massa". Ninguém comete tal resignado acto sobre si de leve ânimo. O que leva as pessoas a tomarem tal decisão é a mesma que as leva a questionar os limites sustentáveis da qualidade de vida num país que se diz desenvolvido.
Para estes indivíduos o protesto sustentasse na base de que viver em condições tão extremas não é sequer  viver, por isso tendem para a morte na esperança de serem ouvidos e de se conseguirem libertar de um futuro que se pode tornar mais decadente do que o seu frágil presente. A falta de esperança e de perspectivas para a sua vida e para os seus familiares é o que os faz escolher a morte.

 

Não é correcto dizer a alguém que vive numa decadência à qual não está habituado e contra a qual sempre lutara em vida, que as suas acções só revelam covardia. Facto é que se entrarmos em comparação com a decadência prolongada que a população de um país subdesenvolvido tem de suportar, esta nova realidade europeia parece não ser justificação para tais actos de desespero, contudo há que manter em mente que para estas pessoas vindas de um país pertencente ao grupo dos mais desenvolvidos, com os novos desafios advindos da crise mundial o correcto e o justo perderam as suas normais definições e limites.

 

Ainda dentro desta dinâmica de pensamento deixo aqui transcrita uma afirmação dada à BBC Online do Brasil por Bakiari, pertencente a uma ONG de prevenção ao suicídio Klimaka: "O peso da crise é simplesmente maior do que a capacidade desta sociedade de sustentá-lo(...)".

 

 

 

 

 

Links úteis:
 

(Crise grega leva reformado ao suicídio na praça Sintagma de Atenas)

 http://www.ionline.pt/mundo/crise-grega-leva-reformado-ao-suicidio-na-praca-sintagma-atenas 

 

(Voluntários se mobilizam para combater onda de suicídios na Grécia)

 http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/10/111017_grecia_suicidios_mv.shtml 

 

(Austerity drives up suicide rate in debt-ridden Greece)

http://articles.cnn.com/2012-04-06/world/world_europe_greece-austerity-suicide_1_pharmacist-dimitris-christoulas-shot-suicide-note-anti-austerity?_s=PM:EUROPE

 

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais

 

 

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:02 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Quinta-feira, 03.05.12

Portugal sem fundo

O que será deste futuro? Falo do futuro que nos é próximo e que outrora não era tão inquietante quanto o futuro longínquo, porque esse encontrava-se longe de mais para se prever.

 

Somos jovens, somos inexperientes de mais porque nem a experiência que precisamos nos é cedida. Estudamos, caminhamos longos anos num sistema educacional que nos cultiva e fornece instrumentos para o nosso desenvolvimento, mas que no fim - entre diplomas a mais ou a menos - não nos assegura oportunidades nesta decadente realidade.

 

"O futuro somos nós" - esta velha frase encontra-se desgastada por anos preenchidos de crises económicas, sociais e políticas.

Nada nos é garantido, mas também nada nos é possibilitado.

 

Resta-nos acreditar que temos algo de novo para oferecer e que as oportunidades nos serão dadas, eventualmente.

Resta-nos ser empreendedores do nosso futuro. Não nos podemos acomodar.  Não penhoremos o nosso presente em prol das dificuldades, nem nos limitemos a sonhar apenas durante a noite entre sonos mal dormidos e turnos de um trabalho que não nos preenche. Não fiquemos assim, sem perspectivas do que somos ou do que nos tornaremos. Ganhemos ânimo e folgo para as batalhas diárias que agora nos se apresentam! O optimismo não está ultrapassado. Temos agora de procurar soluções que não nos seriam tão evidentes há uns anos atrás, pois éramos novos demais para nos preocuparmos.

 

Falo da confusão em que nos encontramos: sem saber se o futuro (o próximo e não apenas o longínquo) que idealizámos e para o qual tanto lutámos será possível de concretização.

 

Falo do Portugal sem fundo em que nos tornámos. Os tempos são difíceis, os trocos no nosso bolso escasseiam e as ideias são demais para se concretizarem. Vivemos num marasmo que só uma crise tão aguda quanto esta poderia tornar possível.

 

Mas será assim tão tortuoso este caminho que o sopro das impossibilidades foi capaz de apagar toda a réstia de esperança num Portugal sustentável?

 

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Segunda-feira, 30.04.12

Haja Coragem!

 

 

 

 

 

 

 

 

Haja coragem para enfrentar estes dias fastiosos, este mar de incerteza e sem futuro em que vivemos. Haja coragem para não desvanecer.


Para mim os tempos passados, de um Portugal aventuroso pelos bravios caminhos marítimos estão ultrapassados. Não vale a pena viver do passado se é no presente que crescem os nossos dias, e é para o futuro que nós caminhamos. É preciso ter atenção em quem nos quer implantar sentimentos de saudosismo de velhos tempos (ultra) passados. Quem o faz sabe muito bem o que tenciona. Criar distracções no presente com velhas histórias de tempos de glória é algo que deve ser sempre de desconfiar. O que há de tão errado no presente que não nos queiram deixar observar? Nós sabemos bem tudo o que se passa. Chamam-lhe de crise, de regressão, de más políticas (de maus políticos). Eu sou das pessoas que gostam de chamar as coisas pelo nome. Se a nossa vida é feita das escolhas por nós adoptadas, assim também o é este presente. Somando o negro percurso de longos (e penosos) anos de más opções e acções tomadas, o resultado que se apura é esta actualidade sem grandes fundos.


Se gerir o país é similar a gerir uma casa, acho que temos muitos maus senhorios.
É tão português o fado como os “remendos”. Aqui não se previne, só se remedeia – podia ser este o slogan de Portugal. Bem sei que não é muito apelativo, mas pelo menos é verdadeiro.

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais 

publicado por Joana Graça Feliciano às 22:19 | link do post | comentar

"Zona Crítica"

é um projecto recente que pretende fomentar uma análise política, económica e social sobre a realidade nacional/internacional, sem necessariamente seguir uma orientação partidária.

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