Quinta-feira, 03.05.12

Portugal sem fundo

O que será deste futuro? Falo do futuro que nos é próximo e que outrora não era tão inquietante quanto o futuro longínquo, porque esse encontrava-se longe de mais para se prever.

 

Somos jovens, somos inexperientes de mais porque nem a experiência que precisamos nos é cedida. Estudamos, caminhamos longos anos num sistema educacional que nos cultiva e fornece instrumentos para o nosso desenvolvimento, mas que no fim - entre diplomas a mais ou a menos - não nos assegura oportunidades nesta decadente realidade.

 

"O futuro somos nós" - esta velha frase encontra-se desgastada por anos preenchidos de crises económicas, sociais e políticas.

Nada nos é garantido, mas também nada nos é possibilitado.

 

Resta-nos acreditar que temos algo de novo para oferecer e que as oportunidades nos serão dadas, eventualmente.

Resta-nos ser empreendedores do nosso futuro. Não nos podemos acomodar.  Não penhoremos o nosso presente em prol das dificuldades, nem nos limitemos a sonhar apenas durante a noite entre sonos mal dormidos e turnos de um trabalho que não nos preenche. Não fiquemos assim, sem perspectivas do que somos ou do que nos tornaremos. Ganhemos ânimo e folgo para as batalhas diárias que agora nos se apresentam! O optimismo não está ultrapassado. Temos agora de procurar soluções que não nos seriam tão evidentes há uns anos atrás, pois éramos novos demais para nos preocuparmos.

 

Falo da confusão em que nos encontramos: sem saber se o futuro (o próximo e não apenas o longínquo) que idealizámos e para o qual tanto lutámos será possível de concretização.

 

Falo do Portugal sem fundo em que nos tornámos. Os tempos são difíceis, os trocos no nosso bolso escasseiam e as ideias são demais para se concretizarem. Vivemos num marasmo que só uma crise tão aguda quanto esta poderia tornar possível.

 

Mas será assim tão tortuoso este caminho que o sopro das impossibilidades foi capaz de apagar toda a réstia de esperança num Portugal sustentável?

 

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Terça-feira, 01.05.12

O 25 de Abril não é só português

Os cravos foram novamente lembrados há cinco dias. Uma vez mais se aglomeraram na Avenida da Liberdade diversos grupos de cidadãos que exibiam faixas e bandeiras em prol de uma causa que consideravam necessitar de atenção da agenda Pública e Mediática e sem a qual a democracia portuguesa não resplandeceria todo o seu encanto. É que mais que um ideal de pluralidade, justiça social ou liberdade; quem sonhou acordado durante o 25 de Abril, imaginou que a democratização se faria nas mais diversas áreas, principalmente em relação ao acto do sufrágio, mais especificamente às quatro letras que importunam qualquer status quo do poder estabelecido. Estivesse Rousseau entre nós e provavelmente nos recordaria que o homem só é verdadeiramente livre quando vota. O seu único pedaço de soberania na teia da Res Publica. Tendo em conta os múltiplos canais de participação política que surgiram nas democracias mais avançadas, considero excessiva a aplicação dessa crença à actualidade. Contudo, é inegável que o “votar” é o momento em que as relações de poder são comutadas e os representantes políticos sentem que são fiscalizados, avaliados e dependentes da vontade dos cidadãos.

 

Esta dependência momentânea é suficiente  para que os deputados acautelem a sua acção, o seu discurso e direccionem as suas palavras a quem os elege. Ora, se assim é, não é factor de admiração a pouca atenção dedicada pelos políticos portugueses aos imigrantes presentes no nosso país. Em todos os debates parlamentares ouvimos os mesmos destinatários de sempre: os portugueses ou cidadãos portugueses. Este facto como disse não é factor de admiração; é, sim, factor de indignação. Como se os contribuintes, trabalhadores ou empresários que tanto contribuem para o nosso país não fossem igualmente estrangeiros estabelecidos no nosso país e que sofrem como qualquer português com a austeridade e com os problemas económicos. Pior, muitas vezes são ainda tidos como responsáveis pela crise e usados como bodes expiatórios.

Em facto, o nosso país é formado por cidadãos e não por portugueses. Estes são importantes para a sustentabilidade e enriquecimento humano e cultural de Portugal mas, acima de tudo, são Homens portadores de direitos e deveres que merecem ser uma parte da decisão de quem governa o país de acolhimento e que legisla sobre o futuro de todos. Eles têm direito a um 25 de Abril, têm direito ao voto.

 

Observando e analisando a História, deparamo-nos com um progressivo alargamento do voto a homens e mulheres independentemente da sua escolaridade ou condição sócio-económica. Resta-nos continuar esta marcha civilizacional por uma democracia em aperfeiçoamento. Um passo lógico para quem já pode votar nas eleições autárquicas. E não se pede um círculo eleitoral imigrante como Passos Coelho chegou a abordar na campanha eleitoral, exige-se o voto dos imigrantes no correspondente círculo distrital.

 

No dia 25 de Abril, lá estavam eles unidos em grupo a gritar pela desumanização das leis de imigração europeias como se um Homem pudesse ser ilegal. Pediam também maior representação política. A faixa dizia que “Eu existo, com ou sem visto”, um tema que gostava de abordar posteriormente. Por agora o meu cravo presente neste texto é a defesa intransigente da cidadania plena dos imigrantes, uma liberdade só alcançada com a capacidade eleitoral, como defenderia Rousseau.

 

Frederico Aleixo

Licenciado em Ciência Política

 

publicado por Frederico Aleixo às 01:13 | link do post | comentar | ver comentários (5)
Segunda-feira, 30.04.12

Haja Coragem!

 

 

 

 

 

 

 

 

Haja coragem para enfrentar estes dias fastiosos, este mar de incerteza e sem futuro em que vivemos. Haja coragem para não desvanecer.


Para mim os tempos passados, de um Portugal aventuroso pelos bravios caminhos marítimos estão ultrapassados. Não vale a pena viver do passado se é no presente que crescem os nossos dias, e é para o futuro que nós caminhamos. É preciso ter atenção em quem nos quer implantar sentimentos de saudosismo de velhos tempos (ultra) passados. Quem o faz sabe muito bem o que tenciona. Criar distracções no presente com velhas histórias de tempos de glória é algo que deve ser sempre de desconfiar. O que há de tão errado no presente que não nos queiram deixar observar? Nós sabemos bem tudo o que se passa. Chamam-lhe de crise, de regressão, de más políticas (de maus políticos). Eu sou das pessoas que gostam de chamar as coisas pelo nome. Se a nossa vida é feita das escolhas por nós adoptadas, assim também o é este presente. Somando o negro percurso de longos (e penosos) anos de más opções e acções tomadas, o resultado que se apura é esta actualidade sem grandes fundos.


Se gerir o país é similar a gerir uma casa, acho que temos muitos maus senhorios.
É tão português o fado como os “remendos”. Aqui não se previne, só se remedeia – podia ser este o slogan de Portugal. Bem sei que não é muito apelativo, mas pelo menos é verdadeiro.

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais 

publicado por Joana Graça Feliciano às 22:19 | link do post | comentar
Domingo, 29.04.12

Não se pode despejar uma ideia

O debate público à volta da ocupação da escola do bairro da Fontinha é, na minha opinião, o mais interessante e importante debate da última década sobre a natureza dos espaços públicos. Mais do que discutir acerca de legalidades ocas, trata-se de legitimar emocional e objectivamente o usufruto pacífico e construtivo dos espaços que, simbolicamente, pertencem à população, sem pagar qualquer renda nem pedir explicações às autarquias, que desde há muito tempo se despiram do dever social de reabilitar as áreas urbanas estruturalmente pobres e degradadas. É o caso do bairro da Fontinha, antigo bairro operário no centro do Porto. O escultor José Rodrigues disse, em 2008, que se encontrava “rodeado de miséria e tristeza” as quais apenas eram acentuadas pela proximidade quase irónica com a zona mais cosmopolita da cidade. De facto, os próprios habitantes lamentavam-se de queixas constantes apresentadas à PSP de roubos, assaltos e tráfico de droga nas ruas do bairro. As pequenas casinhas de pedra são maioritariamente ocupadas por idosos que sempre lá viveram e por famílias de poucos recursos económicos e culturais.

 

Foi o ano passado que um grupo de activistas decidiu ocupar o antigo edifício da escola, encerrada em 2005 por ordem do Sr. Rui Rio, e iniciar um projecto totalmente auto-financiado e auto-gestionado de reabilitação das estruturas e dos materiais existentes. Tudo isto sem chatear ninguém, e muito menos sem pedir contas a nenhuma autoridade irresponsável que tinha claramente deixado em suspenso a felicidade da população do bairro em prol de outro tipo de projectos: uns que não dessem despesa, e já agora que perpetuassem as desigualdades sociais de forma a manter vivos a alienação e o medo, das pessoas face à sua própria condição, por um lado, e das pessoas face à possibilidade de adquirirem essa consciência e de a fazerem valer, por outro. Os ocupas irritaram a Câmara porque acabaram com o medo, a violência e o tráfico. Chatearam-na porque agora, vejam bem, as crianças têm acesso a actividades livres e gratuitas, desde apoio escolar a desporto e artes-marciais. É de facto uma chatice ver que, agora, há jantares comunitários todos os Domingos, e que as pessoas do bairro até se reúnem na rua para discutir políticas sociais e possíveis projectos comunitários com os activistas. Chega a ser inimaginável o descaramento dos velhotes, a sua felicidade ao verem o bairro onde sempre moraram e quanto ao qual já não tinham grande esperança a ser valorizado e reanimado por uma nova geração de habitantes que se preocupa com o futuro dos seus netos.

 

Rui Rio desculpa-se usando o argumento da legalidade, cuja cartada mais recente é a suposta “ameaça” feita pelo grupo Anonymous (o qual, esclareça-se, não tem qualquer envolvimento directo no colectivo, tratando-se apenas de um gesto de solidariedade pelo qual não se pode criminalizar os activistas). Ironicamente, foi a própria Câmara do Porto a actuar ilegalmente, ao não assinar a sua parte do contracto de formalização do colectivo Es.Col.A e ao enviar forças de segurança que não só foram violentas para com a população da Fontinha e os activistas pacíficos, no caso da Polícia de (in) Segurança Pública, como também foram destacados bombeiros sem farda e de cara tapada para procederem à operação de despejo, facto que a Associação Portuguesa dos Bombeiros confirmou e perante o qual já pronunciou o seu desagrado.

Por estas razões, o argumento da ilegalidade não é suficiente para desculpar a insensibilidade social da Câmara Municipal do Porto perante um projecto que estava a reabilitar um dos bairros mais pobres da cidade, a promover a coesão social e a melhorar consideravelmente a qualidade de vida dos seus habitantes sem pedir um cêntimo à autarquia para se financiar. Quem devia pagar 30 euros era a Câmara do Porto ao colectivo Es.Col.A. e à população da Fontinha, e não o contrário.

 

O que os ocupas fizeram foi desafiar a autoridade que se justifica a si mesma, com as suas leis e regulamentos ocos, desligados da própria realidade. Ou pelo menos da realidade vivida pelos habitantes do bairro da Fontinha. Os miúdos que estavam, todos os dias, a receber apoio escolar e actividades lúdicas gratuitas não percebem porque é que existe uma lei que os proíbe de terem um espaço que eles próprios ajudaram a construir, física e simbolicamente, e do qual usufruem gratuitamente todos os dias, na companhia dos amigos do bairro e daqueles “ocupas”, que pelos vistos até são gajos simpáticos.

 

Apesar da reacção desproporcionada da Câmara do Porto, o projecto tem recebido o apoio da opinião pública em geral, dos meios de comunicação social e dos movimentos sociais, de tal forma que até Lisboa já tem uma casa ocupada, em solidariedade com o Es.Col.A., no nº 94 da Rua de S. Lázaro. Este grupo de pessoas corajosas está a dar-nos a todos uma óptima lição: que a palavra “cidadão” não tem de, nem deve, designar as amarras que nos prendem irrevogavelmente aos princípios burocráticos e constitucionalistas de um poder que já não nos serve enquanto indivíduos, mas antes designar aquela qualidade que nos dá, enquanto pessoas dotadas de ideias e projectos de vida, o direito, esse sim irrevogável, de participar activamente na construção de um mundo (leia-se, bairro) no qual possamos viver realizados, e não apenas existir como escravos de nós próprios.

 

Adriana Albuquerque

estudante - licenciatura de Sociologia

publicado por Joana Graça Feliciano às 21:06 | link do post | comentar
Quarta-feira, 25.04.12

O 25 de Abril, a Revolução e os 38 anos que já passaram…

Todos os anos são-nos relembradas as lutas passadas do nosso povo, entre elas destaca-se pela sua importância política e social a Revolução dos Cravos, o 25 de Abril de 1974. Nos dias que corriam antes dessa data, a luta contra a ditadura era uma constante e o que alimentava o povo português era a esperança na construção de um país renovado que passava pela ânsia da liberdade, que há muito se encontrava subjugada aos interesses dos opressores da época.

 

Hoje a luta é outra. Já não se travam disputas pelo fim da ditadura, mas sim pela eficiência que é devida a esta democracia que nos foi herdada. Os valores que pontuavam a Revolução de 1974 foram perdendo o seu conteúdo, muito devido às dificuldades que se foram impondo no caminho e crescimento do Estado português.

Passados 38 anos desde este marco histórico, novas questões e análises são feitas sobre o legado pós-revolucionário. A dúvida que se impõe agora em muitas das mentes portuguesas é a da transposição dos valores do 25 de Abril para a nossa actualidade e a qual a constatação do presente faz agravar: “Foi para isto que se fez o 25 de Abril e precisaremos nós de um nova revolução para enfrentar os novos tipos de opressão que o século XXI nos reservou para que assim despertemos a consciência cívica?”.

 

A resposta a esta e muitas outras dúvidas que o tempo de crise política e económica nos levam a formular, são de resposta e consensos difíceis de obter. Mas a verdade é que o 25 de Abril foi feito para obtermos a realidade que temos agora, independentemente dos defeitos que nela encontramos. A Revolução foi feita para quebrarmos com o isolacionismo e anacronismo que nos tinha sido imposto, foi feita para crescermos em democracia, alcançar Justiça Social e viver nos valores liberais da nova era.

Mas a realidade que nos se apresenta agora parece sofrer de uma carência de muitos desses valores pelos quais lutámos arduamente para obter.

 

Não temos necessariamente de olhar para o presente como um castigo pelas decisões do passado, e nem devemos colocar de parte os valores republicanos que construímos. Temos sim de continuar a lutar pela democracia que alcançámos e desse modo reaviva-la para que sejam ultrapassadas as fragilidades e insuficiências que nela começam a transparecer.

 

Há que dar uso à liberdade conquistada e que aparenta estar cada vez mais limitada. O 25 de Abril não foi feito para esta realidade exacta em que nos encontramos, mas foi feito para conseguirmos obter muitos dos meios que são necessários para a ultrapassar.

 

São por estas razões aqui mencionadas que a Revolução dos Cravos aconteceu e são por estas mesmas razões que todos os anos nos é relembrada esta data. Tudo isto para que não esqueçamos que a aspiração portuguesa foi escrita há 38 anos atrás e passava pelos mesmos ideais e valores simples de sempre: um país mais livre, democrático, justo e fraterno.

 

 

Joana Graça Feliciano
estudante - licenciatura de Relações Internacionais 

 

 

 

 

 

publicado por Joana Graça Feliciano às 13:38 | link do post | comentar

"Zona Crítica"

é um projecto recente que pretende fomentar uma análise política, económica e social sobre a realidade nacional/internacional, sem necessariamente seguir uma orientação partidária.

Colaboradores

Joana Graça Feliciano (Administradora)

António de Almeida Carvalho (Colaborador)

Frederico Aleixo (Colaborador)

João Madeira (Colaborador)

Miguel Máximo (Colaborador)

Pedro Silva (Colaborador)

Ricardo Palmela de Oliveira (Colaborador)

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